IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL EDITH STEIN

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Surgimento de uma nova filosofia steiniana.

Ramirez Silva
Na páscoa de 1923, Stein apresentou-se às Dominicanas educadoras de Santa Madalena, de Spira, que a acolheram como professora e ali permaneceu até a páscoa de 1931.
Neste ambiente de silencio, estudo e oração do convento das dominicanas, Edith dedicou-se à leitura de Santo Tomás de Aquino. Ela completou o método fenomenológico aprendido com Husserl com a visão tomista problematizando uma filosofia cristã. Vê-se esta reflexão num primeiro ensaio editado por Niemeyer, em 1929, em Halle intitulado da fenomenologia de Husserl à filosofia de Santo Tomás. Em um dos trabalhos mais importante de Stein, Ser Finito e Ser Eterno, houve um esforço para dar continuidade à filosofia do Santo Tomás, tentando uma harmonização deste (tomismo) com a filosofia contemporânea integrando a visão tomista com aquilo que Stein considerava “aquisições válidas da fenomenologia”, afinal, Edith Stein torna-se bastante tomista quanto ao conteúdo, mas permanece sempre com o método fenomenológico.
Após traduzir para o alemão as Questiones Disputatae de Veritate (perguntas discursivas sobre a Verdade), de Santo Tomás, Stein começa a comparar a fenomenologia de Husserl e a filosofia de Santo Tomás. Edith Stein definiu a Philosophia Perennis (do latim: filosofia perene) como o verdadeiro espírito filosófico presente em todos os grandes pensadores que buscam descobrir a inteligibilidade do universo.
“Philosophia perennis significa no entanto algo bem distinto: trata-se a meu ver do espírito do filosofar autêntico, que vive em todo filósofo autêntico, ou seja, em todo aquele movido por uma necessidade interior irrecusável de investigar o logos ou a ratio4 (como costumo traduzir esse termo grego) desse mundo. (STEIN, 2005, p. 305.)
Edith propõe que se admita uma única disciplina denominada por ela de filosofia. Essa filosofia é obra da razão num sentido que engloba a razão sobrenatural, informada pela revelação e a razão natural, fruto de um esforço pessoal. Sendo assim, esta filosofia tem como ponto de partida a fé. Para Santo Tomás, diz ela, “a verdade primeira, o principio e o critério de toda verdade é Deus. (...) O axioma filosófico primordial” (STEIN apud MIRIBEL, 2001, p.74).
Vejamos como Edith Stein resume seus estudos:
Husserl e Tómas de Aquino acham que o fim da filosofia é dar uma compreensão do mundo, a mais universal, a mais solidamente fundada a que se possa chegar. Husserl procura seu ponto de partida ‘absoluto’ na imanência da consciência. Para Tomás, ao contrario, o ponto de partida é a fé. A fenomenologia considera-se uma ciência do ser e demonstra como uma consciência, graças ás suas funções espirituais, pode construir um mundo e eventualmente todos os mundos possíveis. Nesta perspectiva nosso mundo representa para ela uma de suas possibilidades, Qual é a constituição concreta de nosso mundo? Compete às disciplinas positivas determiná-las. Seus pressupostos práticos e teóricos são discutidos no estudo das possibilidades que é objetivo da filosofia. Tomás não se preocupa com os mundos possíveis e sim com o fundamento de tal conhecimento? Sem dúvida as pesquisas sobre o ser, mas também todos os fatos que a experiência natural e a fé nos apresentam. O ponto de partida que unifica o desdobramento de todo o conjunto da problemática filosófica e à qual ela se refere incessantemente, é, para Husserl a consciência transcendental pura e, para Tomás, Deus e seu relacionamento com as criaturas. (STEIN apud MIRIBEL, 2001, p. 76).
Por causa do tomismo estudado por Edith os discípulos de Husserl acharam que ela havia rompido o seguimento ao pai da fenomenologia como conseqüência de ter se tornado católica. Husserl era protestante vindo do judaísmo e continuava firme, em sua filosofia. A pesar do que se comentava sua relação com Stein continuava cordial, marcada pela amizade e mútuo respeito.
Na verdade, Edith aplicou o método fenomenológico no estudo do tomismo dando-lhe continuidade e regularmente seus trabalhos apareciam nos anais de Filosofia e Pesquisas fenomenológicas de Edmundo Husserl.
O professor Dempf, de Munique, amigo de Stein, nos fala da admiração de Stein pelo método fenomenológico:
A fenomenologia, afirma ele, era para ela mais do que uma ponte que levava ao tomismo, a fenomenologia abriu para Edith Stein o caminho que partindo da simples objetividade dos fenômenos e de seu exato conhecimento, ia até a o conhecimento rigoroso do Ser, o caminho que vai do método fenomenológico ao método ontológico. (Dempf apud MIRIBEL, 2001, p.104) 5
A filosofia não chega a um ponto absoluto da verdade e sendo assim o método fenomenológico, como a qualquer caminho filosófico não deve chegar a emitir dogmas, mas estar sempre aberto a uma continuidade, pois isto é filosofia. O método adotado por Edith é o fenomenológico a este método ela nunca abandonou, mas o completou para chegar a conclusões compatíveis com o tomismo.

1.3.1 As obras filosóficas.
Entre as obras mais importantes de Edith Stein podemos citar: Ser finito e Ser Eterno e A ciência da Cruz. Na introdução da obra Ser finito e Ser Eterno ela define sua noção de filosofia cristã: na primeira parte é problematizada a natureza do ser finito e na segunda parte o Ser eterno, para falar depois dos vestígios e da imagem da Trindade no mundo. O livro termina abordando uma perspectiva do corpo místico de Cristo.
A grande obra A ciência da Cruz nasceu quando a família carmelitana celebrava o quarto centenário do nascimento de São João da Cruz em 1942 e por este motivo Edith Stein foi convidada pelo provincial dos carmelitas descalços a redigir um estudo sobre o santo doutor para celebrar esta data. Logo após concluir o índex da obra Ser Finito e Ser Eterno, escreveu a obra A Ciência da Cruz, em um ano apenas, sendo a ultima parte escrita no dia de sua prisão. Edith com sua irmã rosa foram levadas para Gestapo6.
A ciência da Cruz é a obra de maior maturidade de Edith Stein. Stein atualiza a obra de São João da Cruz valendo-se de sua filosofia. A primeira parte do livro intitulada a mensagem da cruz trata das experiências pessoais de São João da Cruz, na segunda parte é abordada “a doutrina da cruz” e na terceira parte intitulada “a escola da cruz” trata da vivencia deste símbolo. Em toda obra está contida a antropologia do Santo doutor. Esta obra ficou inacabada, ou melhor, Edith Stein concluiu a obra com uma práxis levada até ao extremo. Ela concluiu a obra A ciência da Cruz com sua própria vida, quando foi assassinada juntamente com seu povo, judeu, num campo de extermínio em Auschwitz.
Para dedicar-se a tradução da obra De veritate de S. Tomás7, em 27 de março de 1931 Edith deixou de lecionar em Spira. Ao mesmo tempo, desenvolveu uma intensa atividade de conferencista.
Práxis ao extremo.
Para Edith Stein, a teoria sem a prática não tem sentido nenhum. Assim, por exemplo, ela era intolerante com a injustiça. Em Münster animou seus alunos a formarem um grupo para oporem-se aos grupos de estudantes nazistas. Diante dos acontecimentos Stein não hesitou em escrever ao Papa Pio XII advertindo para um futuro sombrio e pedindo que o Sumo Pontífice escrevesse uma encíclica para defender os judeus.
Numa noite em que havia esquecido a chaves para entrar no colégio, um professor católico a convidou a pernoitar em sua casa onde sem saber da origem judaica de Edith contou-lhe sobre as atrocidades contras os judeus na Alemanha, matéria que constavam num jornal americano. Neste momento ela entendeu que seu destino seria o mesmo de seu povo e interiormente se uniu a ele se oferecendo a Deus para levar tão pesada cruz.
Em 19 de abril de 1933, Stein foi afastada do instituto em Münster, por causa de sua origem judaica. Então ela percebeu que este era o momento apropriado de realizar seu sonho a doze anos desejado: ser carmelita. As dificuldades não eram poucas: sua idade, quarenta e dois anos, a origem judia e a falta de recursos financeiros. Contudo, após ser examinada pelos responsáveis pelo Carmelo de Colônia, foi admitida na comunidade e ingressou no dia 15 de outubro, festa de santa Teresa de Ávila.
A partir do momento em que a mãe de Edith ficou sabendo que sua filha além de ser católica iria se tornar uma freira carmelita não houve mais paz em sua família. A indignação da Senhora Stein era tanta que por vezes teve ataques de fúria, explosões de raiva. Sua mãe imaginava falsos motivos para a filha estar no Carmelo e não adiantariam explicações. Restava as duas somente suportar este sofrimento irremediável. Mãe e filha pensavam que perderiam a saúde devido a tamanha pressão psicológica, contudo resistiram firmes até o fim de suas vidas. Ambas morreram convictas de sua fé.
Mais tarde, no Carmelo, ela solicita a sua superiora permissão para levar a cruz de seu povo judeu:
Querida, vossa Reverendíssima, permitir que eu me ofereça ao Coração de Jesus, em holocausto pela paz no mundo. Que o reino do Anticristo seja esfacelado, se possível, sem uma guerra mundial, e que uma verdadeira nova ordem seja estabelecida. Gostaria de me oferecer ainda esta tarde, porque é a décima - segunda hora. Sei que nada sou, mas Jesus assim o quer. Não há duvidas de que ele dirija este apelo a muitas outras almas, nestes nossos dias. (STEIN apud MIRIBEL, 2001, p.140) 8
Edith via no sofrimento o valor de co-redenção para aqueles que participando do corpo de Cristo o seguindo em tudo e pela fé são um prolongamento da paixão e morte de Jesus. Desta forma, com o sofrimento oferecido por um homem se resgata outro homem, outrora afastado de Deus por causa do mal. Ela afirmava não mais ser possível participar da missa sem desejar unir-se ao sacrifício de Cristo pela salvação do mundo.
No dia 15 de abril de 1934, conforme antiga tradição, num domingo, Edith se consagra recebendo o hábito carmelita e adotando o novo nome de Irmã Teresa Benedita da Cruz. Ela escolheu o nome da Santa que lhe despertou para fé e acrescentou a este o sobrenome Benedita da Cruz, que equivale à bendita cruz, assumindo assim publicamente sua opção radical pelo caminho da cruz, pela vivencia deste símbolo.
Para entrar no Carmelo Stein se dispusera a sacrificar sua atividade de filósofa, contudo recebeu a ordem, do seu superior provincial, de continuar a sua atividade de pesquisa fenomenológica com os seus trabalhos filosóficos. Desta forma pode terminar uma obra esboçada anteriormente do título Ato e potência a qual deu origem à obra Ser Finito e Ser Eterno.
1.4.1. Ave Crux, spes única (Salve Cruz, única esperança)
Edith Stein buscou fugir da ameaça de morte, sendo assim, fica descartado o caráter suicida de sua práxis radical como veremos a seguir:
Depois da “noite dos cristais” 9, é o nome popularmente dado aos atos de violência ocorridos na noite do dia nove de novembro de 1938, a permanência na Alemanha tornou-se, a partir de então, arriscadíssima. Por este motivo, Stein foi enviada pelos seus superiores para o convento de Echt, na Holanda. As carmelitas acolheram em seu seio a exilada no dia 31 de dezembro de 1938.
Em janeiro de 1942, Edith planejou fugir para Suíça com sua irmã, contudo encontrava dificuldades de acolhimento para irmã Rosa que por ser de ordem terceira, ou seja, não era religiosa, deveriam arranjar abrigo em outro lugar, pois o Carmelo acolheria somente Edith.
Nesta época, Milhares de famílias judias já foram expulsas de suas próprias casas e separados em campos de concentração, onde encontrariam trabalhos forçados, tortura, morte e incineração de seus corpos.
No dia 2 de agosto, aproximadamente às cinco horas da tarde, Edith Stein e sua irmã Rosa foram presas e levadas para Gestapo. Chegaram às cinco horas na estação de trem de Hooghalen, foram levadas a um campo de concentração composto de milhares de barracas a uns cinco quilômetros da estação. Depois partiram para o campo de concentração de Amersfoot. A viagem até Amersfoot ocorreu sem incidentes, mas ao chegarem, sofreram toda sorte de vexames e foram coagidos a coronhadas pelos soldados da S.S. , Soldados das Tropas de Assalto, para dormitórios de onde não poderiam sair para nada. Os judeus não católicos foram alimentados, os católicos eram tratados de forma mais impiedosa. Todos partiram para o campo de concentração em Westerbork, de onde puderam enviar telegramas.
Um comerciante judeu de nome Julius, que escapou da deportação com sua esposa, nos contará a impressão que teve da irmã Teresa Benedita:
(...) entre os prisioneiros que chegaram no dia 5 de agosto ao campo (de Westerbork), destacava-se nitidamente Irmã Benedita por seu comportamento pacífico e sua atitude tranqüila. Os gritos, lamentos e o estado de super excitação angustiosa dos recém-chegados eram indescritíveis! Irmã Benedita estava no meio das mulheres, como um anjo de consolação acalmando umas, tratando de outras. Muitas das mães pareciam entregues a uma espécie de prostração próxima à loucura. Deixavam-se ficar por lá gemendo como atoleimadas e descuidando-se de seus filhos. Irmã Benedita ocupava-se dessas crianças, dava-lhes banho, penteava-os, preparava-lhes o alimento, cercando-as dos cuidados indispensáveis. Durante todo o tempo que esteve no campo, dispensou a seus companheiros uma ajuda tão caridosa que todos se mostravam comovidos. (MARKUS apud MIRIBEL, 2001, p.187)
Este comerciante perguntou a Irmã Benedita o que iria acontecer com ela depois daquele momento e ouviu uma resposta simples e serena. Ela lhe disse que estava trabalhando e rezando e esperava poder continuar trabalhando e rezando. Vejamos a mensagem da Irmã Benedita enviada do campo de concentração endereçada ao Carmelo:
Querida madre. Quando Vossa Reverência receber a carta de P... (nome ilegível) ficará sabendo o que ele pensa. Parece-me que nas circunstancias atuais é melhor nada tentar. Abandono-me, porém, nas mãos de Vossa reverência, deixando-lhe a decisão. Estou contente com tudo. Não se pode adquirir uma ‘scientia crucis’ (Ciência da Cruz, era o título de seu ultimo trabalho) sem começar por suportar verdadeiramente o peso da Cruz. Desde o primeiro instante, esta foi minha íntima convicção e disse do fundo do meu coração: Ave crux, spes única. De vossa Reverência, a filha agradecida, Irmã B... (Stein apud MIRIBEL, 2001, p.188)
No dia 9 de agosto de 1942 Edith Stein e sua irmã Rosa foram enviadas para o campo de extermínio de Auschwitz e juntamente com tantos outros judeus foram Levados para câmara de gás10 e gaseificados até a morte, seus corpos foram incinerados em fornos crematórios.
Domingo, 11 de outubro de 1998, data da canonização de Edith Stein pelo Papa João Paulo II, que para os católicos significa acrescentar ao numero dos testemunhos heróicos mais um exemplo de vida, Stein deixa de modo especial o testemunho da busca da verdade.
Um pequeno trecho da homilia do Papa expressa bem a mensagem de Irmã Benedita:
Irmã Teresa Benedita da Cruz disse a todos nós: Não aceitem como verdade nada que esteja privado de amor. E não aceitem como amor nada que esteja privado da verdade! Um sem a outra se torna uma mentira destruidora. A nova Santa nos ensina, enfim, que o amor por Cristo passa pela dor. Quem ama de verdade não recua diante da perspectiva do sofrimento: aceita a comunhão na dor com a pessoa amada. (João Paulo II apud Sciadini 2007, p.134)
Edith Stein formulou sua própria filosofia, fruto de uma busca pessoal pela verdade. O que dá mais credibilidade ao seu pensamento é o testemunho da práxis, possível mesmo quando exigida seu limite extremo de coerência.

Um comentário:

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