IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL EDITH STEIN

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

CONTEXTO HISTÓRICO - FILOSÓFICO DE EDITH STEIN

Ramirez Silva


Os Stein chegaram a Breslau, na Alemanha, em 1890. Siegfried Stein, negociante de madeira, e sua mulher Augusta Courant formavam um casal judeu profundamente religioso. No dia 12 de outubro de 1891 nasceu seu sétimo filho, e deram à menina o nome de Edith. Para os judeus aquele dia era dia de penitência, o dia da Expiação. Para a senhora Stein, judia fervorosa, o nascimento de sua filha naquele dia era um sinal divino de que a pequena Stein teria no futuro um papel grandioso na história de seu povo.

Passados dois anos, Edith ficou órfã de pai vitimado por uma insolação durante uma viagem de trabalho. A senhora Stein, com grande vigor, continuou os negócios da família e criou seus sete filhos num ambiente de austeridade e ternura, calcado no Antigo Testamento, seguindo as tradições e costumes judeus com zelo.

Erna, irmã de Edith, assim descreve a vida cotidiana ao lado de sua mãe e irmãos:

    Nossa casa era um lar de judeus ortodoxos. Observávamos cuidadosamente os dias de jejum e festas. Minha mãe acreditava em Deus sinceramente, mas era bastante larga de espírito, para não exercer a menor pressão religiosa sobre nós. As crianças de nossas famílias aprenderam o hebraico numa escola israelita, exceto as duas últimas, Edith e eu. Morávamos, então, nos arredores da cidade e mamãe não queria que percorrêssemos sozinhas a grande distância que nos separava daquela instituição. (BIENIAS apud MIRIBEL, 2001, p. 35)

Em outubro de 1897, aos seis anos, Edith iniciou seus estudos e rapidamente demonstrou uma admirável vontade de aprender, superando suas colegas de classe mais velhas que ela. Suas matérias preferidas eram: alemão, história e línguas. Aprendeu a falar o francês, o inglês e o espanhol, e a ler latim, grego e hebraico. No fim da vida iria aprender facilmente o holandês. Um colega de sala nos relatará mais de perto os extraordinários dons de Edith: “No entanto, acrescentou, não tinha o menor convencimento, era profunda, reservada, silenciosa, sempre complacente e compreensiva para com suas companheiras”. (BIENIAS apud MIRIBEL, 2001, p.38)

A senhora Stein, não se enganava quando temia a influência das teorias céticas e liberais sobre sua filha. Aos treze anos de idade, Edith “abandonou a fé e a oração” e até aos vinte e um anos não conseguia crer na existência de Deus. Mais tarde Erna e Edith ingressaram na Universidade de Breslau (Universidade recém fundada). A primeira optou pela medicina e a segunda dedicou-se às pesquisas filosóficas tendo se matriculado em história e filologia1. Depois, Stein se interessou pela psicologia experimental e após isto se apaixonou pela filosofia.

No tocante as questões sociais, Edith Stein lutou pelos direitos da mulher, pelos direitos dos grevistas; e após a guerra de 1914 trabalhou com tenacidade pela república de Weimar, militando no partido democrático, ela amava sua pátria.

Em 1912, aos vinte e um anos de idade, Edith escreveu um relatório falando sobre a evolução do pensamento na psicologia experiencial2 segundo Kulpe, Buhler e Messer, cujos trabalhos faziam referencia a Edmund Husserl e suas Pesquisas Lógicas. Um professor chamado Reinach ao perceber o entusiasmo de Edith no estudo dos textos filosóficos recomendou-lhe a leitura da segunda parte das Pesquisas Lógicas3.

Após a leitura do segundo tomo das Pesquisas lógicas, Edith Stein reconheceu Husserl “o filósofo e incontestavelmente o mestre de seu tempo (...)” (BIENIAS apud MIRIBEL, 2001, p. 42) por isso, trocou Breslau por Göttingen, cidade que os seus colegas mais velhos costumavam chamar de paraíso da filosofia, onde o assunto sempre era a fenomenologia.

Este período foi marcado pelo entusiasmo juvenil da estudante de filosofia ao descobrir a fenomenologia:

    Tinha vinte e um anos, escreveu ela, e estava cheia de esperanças. A psicologia desapontou-me. Cheguei à conclusão de que esta ciência estava engatinhando, e que lhe faltava fundamentos objetivos. Mas o pouco que eu conhecia de fenomenologia, sobretudo seu método objetivo de trabalho, encantava-me. (STEIN apud MIRIBEL, 2001, p. 43)

Passar do domínio das pesquisas especializadas para o do problema do conhecimento era, para Edith, uma libertação. Sair do ambiente fechado dos parentes judeus e amigos para mergulhar na cidade universitária preocupada com os problemas contemporâneos era viver a liberdade tão desejada. O primeiro contato de seu mestre com Stein foi excelente, ao saber da mesma que tinha lido o segundo tomo completo das Pesquisas Lógicas, Husserl ficou impressionado, e assim a admitiu em Göttingen.

Em 1914, a guerra veio interromper seus estudos. Durante dois anos Edith cuidou de feridos no hospital austríaco de Mähren e recebeu a medalha da Cruz Vermelha. Ao terminar o doutorado, recebeu a nota summa cum laude, ou seja, nota máxima com louvor. A partir de então, Husserl a convidou para trabalhar com ele na Universidade de Friburgo de Brisgau. No verão de 1916, durante o primeiro semestre, Edith, com vinte e cinco anos, foi chamada a ser assistente de Husserl que acabava de ser nomeado para cátedra de filosofia daquela cidade.

1.2. Contexto da experiência da Cruz.

Em novembro de 1917, morreu o professor Reinach em Flandres. A jovem viúva, Anna, pediu a sua amiga Edith que ajudasse a organizar os trabalhos filosóficos de seu marido para uma publicação póstuma. Imediatamente, Edith Stein deixou seus trabalhos para cumprir seu dever de amiga. Stein ficou sem palavras diante deste acontecimento, ela conhecia a felicidade do casal protestante, e temia ver sua amiga esmagada pela dor, contudo a encontrou transformada pela provação. Vendo no rosto de Anna as marcas da dor profunda, Edith percebeu que emanava da alma de sua amiga a força de Cristo, uma nova luz que a unia ao Crucificado deixando em Edith uma impressão indelével. Essa experiência de dor humana, do sofrimento, aqui referido, abre uma perspectiva antropológica que será abordada mais objetivamente no último capítulo. Na verdade, o sofrimento humano tem um valor que a pessoa muitas vezes não percebe, e que é primordial na sua própria formação enquanto pessoa humana.

Um pouco antes da morte Stein disse a um sacerdote:

    Este foi meu primeiro encontro com a Cruz, com esta força divina que ela emana aos que a carregam. Pela primeira vez, a Igreja nascida da Paixão de Cristo, e vitoriosa sobre sua morte, me apareceu visivelmente. No mesmo instante minha incredulidade cedeu, o judaísmo empalideceu aos meus olhos e a luz de Cristo refulgiu em meu coração. A luz de Cristo no mistério da Cruz. Esta é a razão pela qual, tomando o habito de carmelita, desejei unir ao meu nome o da Cruz... (STEIN apud MIRIBEL, 2001, p.60)

O segundo momento de encontro com o crucificado ocorre durante sua vida estudantil, quando Edith Stein conheceu Hedwig Conrad-Martius e as duas firmaram laços de amizade. Após casar-se, a senhora Conrad-Martius foi morar em Bergzabern, no Palatino, numa vasta propriedade cheia de pomares. Esta casa tornou-se um centro de encontro para o círculo filosófico de Göttingen, um ponto de férias aberto a acolher a todos para discussões filosóficas. Edith permanecia hospedada junto à família de Conrad-Martius e vivia uma vida austera. Cultivavam a terra e se revezavam nos afazeres domésticos ajudados por dois camponeses.

Edith era uma mulher sábia e benevolente de inesgotável devotamento, mas mantinha-se muito fechada e silenciosa. Participava dos cultos protestantes com Hedwig Conrad-Martius e após o culto dominical Hedwig ouviu a seguinte observação: “O céu esta fechado para os protestantes, mas aberto para os católicos” (BIENIAS apud MIRIBEL, 2001, p. 64). Edith em seu habitual silêncio estava discernindo a escolha de sua fé.

No verão de 1921 os Conrad-Martius tiveram que se ausentar, então entregaram as chaves da biblioteca para Edith Stein. Estando sozinha Stein pegou aleatoriamente um livro autobiográfico de Santa Teresa de Ávila, após iniciar a leitura foi cativada de tal forma que deixou o livro somente quando o terminou pela madrugada. Ao terminar a leitura, Edith Stein disse para si mesma: “é a verdade”. Após este acontecimento, Stein iniciou sozinha sua instrução religiosa, valendo-se de um missal e de um catecismo. Após completar dezoito meses de permanência na residência dos Conrad-Martius Stein pediu o batismo na Igreja Católica e o recebeu na igreja de Bergzabern.

Depois do batismo, fez a primeira comunhão e, deste dia em diante, freqüentava diariamente às missas, seus amigos relatam deste dia a alegria de Edith que fazia lembrar uma noiva em seu casamento. O bispo de Spira, Dom Luís Sebastião, crismou Edith em sua capela particular e tornou-se seu diretor espiritual. Após esta jornada espiritual, faltava ainda comunicar a sua mãe que havia se tornada católica. Para um judeu, isto é tornar-se um traidor de seu povo, um traidor da tradição judaica.

Então Stein viajou para Breslau para comunicar sua mãe de sua conversão ao catolicismo. Ao chegar à casa aos pés de sua mãe e disse firmemente: “Mamãe, eu me tornei católica”. (STEIN apud MIRIBEL, 2001, p.68). Esta heróica mãe acostumada ao sofrimento, diante de tal noticia não se conteve e chorou. Sua filha nunca tinha visto a mãe chorar e também verteu lágrimas de dor. Mãe e filha ficaram juntas por seis meses indo à sinagoga juntas e cumprindo os jejuns e preceitos judeus. Inutilmente sua mãe tentava convencer sua filha a voltar para a crença do Deus único revelado ao povo judeu.


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