IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL EDITH STEIN

segunda-feira, 27 de julho de 2009

TIPOS E INDIVIDUAÇÃO DA ESPÉCIE FEMININA

Moisés Rocha Farias


“Todo ser físico é caracterizado por uma estrutura especifica que o determina, e que não se identifica ao individuo, pois o que se constata é a multiplicidade de indivíduos com uma mesma estrutura especifica. E a ciência progride justamente partindo desta primeira constatação tipológica que permite uma sistematização”. [1]

A compreensão da tipologia se dá na medida em que mesmo diante duma espécie, podemos observar diferentes maneiras de sua concretização. Acontece um agrupamento de membros que apesar de estarem num mesmo grupo maior que seria a espécie se subdividem de acordo com suas particularidades. A partir desta classificação podemos não só observar, mas também conceituar estes subgrupos, já que “nem toda mulher incorpora perfeitamente o modo feminino de ser”. [2] Sendo assim, constatamos que mesmo na espécie feminina há múltiplas formas de concretização da matéria.

Sendo que, “a alma humana como tal não é um ser pronto, parado, seu ser é vir-a-ser em que as forças que ela traz ao mundo em sua forma germinal devem desenvolver-se pela atividade”, [3] nos deparamos com vários estágios da alma que dependendo do processo do vir-a-ser, pode se tornar um tipo, apesar de estar sempre disponível a amadurecer. Edith Stein acredita na não existência de uma inclinação imutável. Nessa trajetória anímica, nossa autora defronta-se com mulheres de diversos tipos: sexual, romântica, escrava... e plena, o que passaremos a apresentar.

Sexual

São aqueles tipos de almas femininas, que por estarem mais presente em seu corpo que lhe é próprio e por serem a afetividade o centro de sua alma, e por nunca ter sido formada, vive em função de seus sentimentos e sensualidade, deslocando facilmente na prostituição em seu sentido mais amplo. E. Stein na conferência em Zurique descreve este tipo da seguinte forma:

“Parece que essa unilateralidade exprime uma determinada tendência: ela destaca o elemento animalesco e instintivo em oposição a um idealismo mentiroso e um intelectualismo exagerado que gostaria de elevar-se acima da realidade terrena”. [4]

Esse tipo é marcado por uma concentração do seu interesse e de sua força no campo sexual, podendo ocorrer já na infância. Todo seu ser como pessoa reage a estímulos frente ao ser do sexo oposto. Daí a importância da abertura para uma educação consciente em nível afetivo-sexual já na infância, que possibilite ao ser feminino uma maturação condizente com uma finalidade de mulher e não para objetivar-se unicamente no prazer sexual: “A mulher que vive, exclusivamente, em função de seus instintos procurará furtar-se dos deveres da maternidade” [5]

Rontica

O tipo romântico é o tipo idealizador que espera o homem perfeito, os filhos perfeitos, ou até mesmo uma comunidade religiosa perfeita, criando um mundo à parte da realidade. Como conseqüência, sofre por não ter aquilo que sua fantasia criou como ideal, e pior, perde a possibilidade de crescer, e fazer crescer os demais que a cercam concretizando sua missão como mulher.

Ainda como característica do tipo romântico, a mulher torna-se dominadora senão afetivamente, mas psicologicamente. Elas querem exercer seu poder nos que estão ao seu redor isto é, no esposo, filhos, parentes, amigos... Por não ter o que sua fantasia criou de ideal deseja ter posse das pessoas com se fossem objetos e propriedades sua. A esse respeito, reitera E. Stein:

“A mulher que, cheia de receios, vigia seus filhos como propriedade sua tentará prendê-los a si de todas as maneiras (se possível até excluindo os direitos paternos) podando sua liberdade de desenvolvimento.” [6] Não importando com a felicidade dos outros, parece-lhe que o mundo gira ao seu redor, Apresenta-se por outro lado, com uma forte dependência e incapacidade de decisão sobre sua vida.

Escrava

Um outro tipo de mulher é a escrava ou mulher emancipada, que deixa latente a recusa da dependência desse amar e ser amada, tomando então “uma atitude agressiva contra o sexo masculino revelando, justamente nesse posicionamento, a existência da dependência”.[7]

É preciso deixar claro que E. Stein vive no período da efervescência do movimento feminista. [8] Este, apesar de trazer inúmeros benefícios à participação da mulher na sociedade, infelizmente estava embasado em conceitos por demais contraditórios ao ser feminino e à sua finalidade. Diante de tal realidade E. Stein apresenta seu ponto de vista acerca de uma possível descoberta do papel da mulher junto ao homem, que ao contrário do que possa parecer, a proposta de E. Stein não está em limitar a mulher para viver função do homem:

“Não me parece querer dizer que a mulher foi criada só por causa do homem, pois toda criatura tem seu próprio sentido que é ser imagem do ser divino à sua maneira particular.” [9] A mulher não é em hipótese alguma meio para a realização masculina. O fato de ela ter sido colocada como auxiliar sob uma perspectiva feminina judaico-cristã não lhe torna inferior, pois deve se tornar auxiliar numa escolha livre.

Ao se tratar da relação entre mulher e homem diz E. Stein:

“Não se fala aqui em domínio do homem sobre a mulher. Ela é chamada de companheira e de ajudante, e do homem se diz que ele se unirá a ela e que ambos formarão uma só carne. Assim, dá-se a entender que a vida do primeiro casal humano deva ser entendida como a mais íntima comunidade perfeita de amor, que tenham cooperado em harmonia perfeita das forças,... sem possibilidade de antagonismo.” [10]

Ora, a mulher tem seu lugar ao lado do homem, não acima, nem no lugar do homem, sob teoria de igualdade entre os sexos, o que desfigura a imagem feminina e põe em risco sua plenitude. A mulher, para E. Stein, precisa se reconhecer como mulher e isto quer dizer ser diferente do homem. Tal constatação porém, em nenhum momento deve, inferiorizá-la como ser humano. Vimos que a posição de uma pseudo ‘emancipação’ traz em si lutas interiores, um sentimento de inferioridade, apresentando-se mais como fruto de uma realidade machista, No entanto, se olharmos por outro lado fez com que as mulheres se envolveram de tal modo, que por uma busca igualdade deixaram de lado em meio a uma turba de sentimentos, o que lhe é mais original em seu ser feminino.

Plena

Até agora descrevemos tipos que trazem em si características de uma má formação, mas E. Stein também consegue descobrir o tipo de mulher plena, realizada em sua feminilidade capaz de colocar com todo vigor suas capacidades para a realização de sua missão como mulher.

Segundo E. Stein: “Todos conhecem mulheres por sua própria experiência e, por isso, acham que sabem o que é uma mulher”.[11] Para podermos ter uma compreensão do que seja uma mulher plena é preciso que voltemo-nos para sua alma e contemplar sua finalidade sua finalidade. Pela sua matéria e Ethos que foram moldados pela ‘forma’ feminina podemos perceber que a alma está destinada à maternidade e a ser companheira do homem.

“Por isso, a alma da mulher precisa ser ampla e aberta a tudo o que é humano; ela precisa ser cheia de paz para que as pequenas chamas não sejam apagadas por vendavais; ela precisa ser quente para que as sementinhas frágeis não se congelem; ela precisa ser clara para que as ervas daninhas não possam alojar-se em cantos e dobras escuras; reservada para que os assaltos de fora não ponham em perigo a vida em seu interior; vazia de si para que a outra vida tenha lugar nela; e, finalmente, senhora de si e de seu corpo para que toda a sua personalidade esteja preparada para atender a qualquer chamado”. [12]

A alma é quem medeia entre o corpo e o espírito recebendo em si não só uma missão corpórea, mas também espiritual, pois faz parte do seu ser. Segundo Edith Stein toda alma humana é criada por Deus. Todos recebem uma forma especial que os distingue dos demais. Deste modo em sua característica pessoal já está prevista a vocação para uma atuação adequada e única.

Como missão da mulher está a maternidade. Dentro dessa uma missão específica porém, verifica-se empiricamente que nem todas as mulheres são mães. Neste sentido, Edith Stein se dá conta de que é preciso ampliar o sentido materno que não restringe a uma maternidade biológica nem a contradiz, mas vai além. É um Ethos anímico que faz parte do ser feminino, esta maternidade numa dimensão espiritual que não tem menos valor que a biológica.

Em Nossa Senhora, Edith contempla o modelo perfeitissimo de mulher, pois sendo Virgem, tornou-se Mãe. Em Maria, as mulheres independentes de suas vocações específicas, estão possibilitadas de alcançar a plenitude do ser feminino.

O modelo que E. Stein nos apresenta como uma mulher plena, infelizmente em nossos dias foi transplantado para o campo da utopia, para aquilo que é perfeitissimo, e por isso mesmo inalcançável. Tal distância porém muitas vezes se torna motivo de angustia, inferiorização, sentimento de incapacidade, que quase sempre faz estagnar na mediocridade.

E. Stein tem consciência da sua escolha, mas o que faz escolher é justamente a capacidade e a certeza da finalidade da mulher em virtude de sua função: a missão da mulher e a força que traz dentro de si de gerar vida, de transformar seu ambiente sua inclinação ao transcendente. E. Stein quer ser uma voz de libertação e de um despertar para aquilo que a mulher é capaz de ser e fazer por ser mulher:

“Sendo Maria o protótipo da mais pura feminilidade,... não será suficiente levantar os olhos a ela para chegar ao objetivo, será necessário segui-la com confiança... Por isso, não são apenas as mulheres, mas todos os cristãos que devem imitar Maria. Para as mulheres, ela tem, porém, um significado especial: o de levá-las à sua forma adequada, feminina, da imagem de Cristo.” [13]

Todos os tipos são estados que podem ser modificados. Apesar de possuírem características próprias e não cristalizadas, os tipos, diferentemente da forma que é caracterizada por sua determinação, tem em si um movimento que permite a passagem de um para outro: “As jovens que temos diante de nós não estão definitivamente presas ao tipo que representam atualmente.” [14]

Aqui entra em questão a formação que é fator determinante e conceituado pela Edith Stein a seguinte maneira:

“O processo (ou trabalho) que confere à aptidão da alma um (sic) configuração moldada. (Costuma-se falar também em formação como resultado desse processo, ou seja, a forma que a alma adquire, ou eventualmente a alma assim moldada ou até o material espiritual que ela assimila.)” [15]

Edith Stein sustenta que a formação é fundamental para o desenvolvimento plenificante do ser e que é algo dependente de nossa livre vontade. A alma que é a forma determinante da matéria, traz em si o germe de sua plenitude. Cabe à mulher e não a outrem, levar a bom termo a realização de seu pleno pela auto-formação, e que já está contido em sua essência. Pois a mulher segundo Edith Stein:

“Não se trata de um material inerte que precisa ser modelado e formado de fora... Trata-se antes de uma raiz viva em formação, que possui em si mesma a força germinativa (forma interna) para desenvolver-se numa determinada direção, ou seja, em direção àquela forma completa e figura perfeita que deve crescer e amadurecer a partir desse germe”. [16]

Portanto, na visão de Edith Stein a mulher que naturalmente sente este desejo de plenitude possui essa responsabilidade devido ao livre arbítrio. Esta, fazendo uso de suas potências, abre-se à uma ação ou força formadora à qual E. Stein coincide com a graça. [17]

3.5 Individuação

A individuação defendida por Edith Stein tem por fundamento a observação feita por ela dos fenômenos empíricos. Ela fala da necessidade de em meio a essa multiplicidade de concretização da forma, podendo também chamar forma individualizadora, que faz do ente um ser único:

“Toda alma humana é criada por Deus, todas recebem uma forma especial que a distingue das demais; essa sua individualidade com sua humanidade e sua feminilidade deve ser desenvolvida por seu valor de formação. Em sua característica pessoal já prevista a vocação para uma atuação adequada.” [18]

Por isso; “Nem todas as mulheres incorporam perfeitamente o modo feminino de ser. As individualidades não são apenas diferenciações ao ser masculino que possibilitam o exercício de atividades que não podem ser consideradas tipicamente femininas.”[19]. Nos é necessário compreender, que dentro do universo da espécie humana feminina esta contido os diversos tipos, e em todos os diferentes tipos existe uma multiplicidade de indivíduos que de maneira única concretiza o ser feminino. Tal ‘classificação’[20]não é definida apenas pelo caráter do indivíduo por isso:

“Homem e mulher têm em seu ser as mesmas características humanas básicas, das quais prevalecem umas ou outras seja no respectivo sexo, seja no indivíduo. Por isso mesmo, as mulheres podem parecer-se bastante com os homens e vice-versa. Isso pode ser uma conseqüência da vocação individual”. [21]

Edith Stein mostra assim, que o ser humano é único. Isso quer dizer que nenhuma mulher mesmo que esteja dentro de um determinado tipo jamais será igual a uma outra. Por isso é preciso que ela encontre sua vocação especifica e a concretize como ser único e irrepetível, pois cada um tem uma função fundamental na história humana.

O aumento dos indivíduos em um determinado tipo, é conseqüência das influências do modo pelo qual a sociedade se elabora. Se no período medieval contemplávamos o tipo romântico, hoje com o apogeu, sinal de declínio do capitalismo, marcado por uma cultura hedonista, vemos crescer o tipo sexual já na tenra infância, que resultará caso não aja uma profunda formação, numa sociedade de mulheres do tipo sexual, mediocrisando seu ser e conseqüentemente deixando de lado sua missão de ser plena.




[1] MIRANDA, Maria do Carmo Tavares de. O ser da matéria, pág. 99

[2] STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. pág. 131

[3] IDEM pág. 113

[4] STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. Pág.111

[5] IDEM. Pág. 93

[6] IBIDEM.

[7] IDEM. Pág.210

[8] Feminismo, Tipo de movimento social que visa superar as condições de inferioridade da mulher no sistema politico e econômico, na educação, na familia, em todas as formas de relacionamento entre os dois sexos. Costuma-se distinguir entre o “velho” F. Nascido no séc. XIX, que visava sobretudo obter para a mulher a iguadade de direitos civis, e pelo qual se podia falar de movimento de emancipação da mulher; e o “novo” F., difundido nos anos 60, alimentado por concepções ideológicas e por comportamentos coletivos muito mais radicais, que aponta para uma trnformação fundamental da cvondição feminina em todos os seus aspectos, a partir da própria definição cultural da mulher e dos processos de formação de sua personaidade. A este se adaptou melhor o discurso do movimento de libertação da mulher. (GALLINO, Luciano. Dicionario de sociologia, pág. 310).

[9] STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. Pág. 216

[10] IDEM, Pág. 76

[11] IDEM. Pág.193

[12] IDEM. Pág.140

[13] IDEM. Pág. 221

[14] IDEM. Pág. 210

[15] IDEM Pág.118

[16] STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. Pág.117

[17] Cf. Idem. Pág. 138

[18] STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. Pág. 222

[19] STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. Pág. 131

[20] “Classificação” aqui recebe uma conotação de facilitadora para a apreensão de um conceito fruto de uma analise tipológica, jamais um enquadramento sem uma perspectiva da possibilidade de mudança até por que Edith acredita num progresso anímico.

[21] STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. pág.208

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Uma controvérsia sobre a possibilidade de uma filosofia cristã

KÁTIA GARDÊNIA DA SILVA COELHO


Nosso itinerário parte sob o aspecto polêmico no começo do século XX, sobre a discussão: o que era filosofia e o que era filosofia da história, se há uma filosofia ou várias filosofias, se é possível que exista uma filosofia religiosa do ponto de vista da Igreja; pergunta-se sobre a questão de uma ou mais filosofias que à represente. Entretanto, como falar de uma filosofia religiosa ou propriamente de caráter cristão se a filosofia nasce na Grécia, de uma tradição racional com argumentos lógicos e sistemáticos próprio do pensamento grego? Como a filosofia poderia apelar, ao mesmo tempo, para algum tipo de revelação divina e conseguir sua autonomia? Logo, cria-se um ambiente contraditório, uma “confusão babilônica”.
Tal problema foi objetivo de várias controvérsias, sobretudo em 1933 (data de uma reunião da sociedade francesa de filosofia dedicada ao tema)¹, poderíamos citar os nomes mais relevantes dessas discussões: E. Brehier, León Brunschvicg, E. Gilson, Jacques Maritain, Edith Stein e outros. Queremos apresentar uma breve noção sobre a expressão filosófica cristã, algumas das divergentes posições para nos deter na referida concepção, não tanto para resolver, mas para refletir sobre o conceito de filosofia cristã, mas essa problemática da relação entre fé e razão aparece em vários autores antigos dentre eles São Justino e Santo Agostinho, para eles filosofia cristã seria a autêntica sabedoria teológica, na qual a verdade revelada poderia se articular com a razão num único corpo doutrinário.
Na vião de Santo Agostinho – seu modo de pensar após a sua conversão – , a fé adquiriu-lhe novos horizontes; a partir daí nascia a filosofia cristã começando com os Padres gregos. Entretanto Agostinho começou um amadurecimento com esses nomes de forma que com Tomás aconteceu propriamente uma verdadeira reviravolta no pensar filosófico cristão.
Tomás tinha a convicção de que o homem e o mundo possuem autonomia, portanto o individuo é capaz de fazer uso da reflexão racional pura para compreender e dominar o mundo. Segundo Tomás, tanto a fé quanto a razão provém de Deus porque ele é o ser supremo e perfeito, criador do ser enquanto tal, não só das formas do ser.²

Santo Tomás percebeu que a natureza, objeto próprio da filosofia, pode contribuir para a compreensão da revelação divina. Desse modo, a fé não teme a razão,mas solicita-se e confia nela como a graça supõe a natureza e leva-a a perfeição, assim, também à fé supõe e aperfeiçoa a razão. Está iluminada pela fé, fica liberta das fraquezas e limitações causadas pela desobediência do pecado, e recebe a força necessária para elevar-se até ao reconhecimento do mistério de Deus Uno e Trino. Embora sublinhado o caráter sobrenatural da fé, o Doutor angélico não esqueceu o valor da racionalidade da mesma; antes, consegue penetrar profundamente e especificar o sentido de tal racionalidade. Efetivamente, a fé, é de algum modo “exercitação do pensamento”, a razão do homem não é anulada nem humilhada, quando presta assentimento ao conteúdo da fé.³

Diante das controvérsias acerca da expressão filosófica cristã, há aqueles que concordam e aqueles que discordam, há os acreditam nos dados da revelação divina, como os que não acreditam, por exemplo: Brunschvicg acredita que a verdade é a mesma, com isso não há necessidade do objetivo cristã a realidade da filosofia, pois o objetivo cristão negaria o substantivo filosofia(4) porque o dado divino se apresenta como uma verdade inquestionável. Enquanto que, a filosofia busca inquietamente a verdade. Também Brehier busca uma filosofia cristã conforme o magistério da Igreja, a qual seria a perca da liberdade filosófica. Assim esses pensadores e outros defendem a tese de que não há a possibilidade de uma filosofia cristã, em contra partida Gilson e Maritain concordam com a existência de uma filosofia cristã, vejamos o que diz E. Gilson: “Chamo pois de filosofia cristã, toda filosofia que, embora distinga formalmente as duas ordens, considere a revelação cristã uma auxiliar indispensável da razão”.(5) Dessa maneira a filosofia cristã aspira um olhar mais ampliado acerca da realidade no sentido de reunir a teologia e a filosofia numa visão harmoniosa diante das questões do mundo, ou seja, a revelação proporciona ao pensador cristão uma visão geral da reflexão filosófica. (6)
Gilson defende que o espírito de toda filosofia cristã é teológico. Para Maritain a filosofia, pelo menos a filosofia moral, tem uma dependência essencial da teologia pelo qual deve estar em submissão à fé, para que possa tornar-se uma autentica ciência e esteja preparada ao seu objetivo de natureza humana. (7)
Em princípio, a filosofia cristã mantém-se aberta a toda e qualquer questão filosófica tendo o olhar no passado para erguer um edifício em bases novas com o objetivo de melhorara e aprofundar o conhecimento, para então, enfrentarmos os problemas contemporâneos, já que a filosofia cristã possui este caráter de uma visão total da realidade, empenhando-se em penetrar mais profundamente nos problemas gerais e não em questões isoladas. Assim, a revelação divina proporciona ao pensador um conjunto harmonioso acerca da realidade resultando em beneficio a filosofia.
Edith Stein tanto concorda com o que fora dito em beneficio sobre a expressão filosófica cristã, quanto do pressuposto da doutrina do conhecimento elaborado unicamente da razão natural proposto por Tomás de Aquino, pelo qual ela procura estabelecer um diálogo com o pensamento filosófico medieval e aquele da modernidade com a pretensão de analisar o sentido e a possibilidade de uma filosofia cristã Entretanto, é possível haver um diálogo comum tendo em vista algo tão discrepante em relação a fé e a razão? A filosofia poderia falar do Deus revelado da fé, e continuar sendo livre ou há aqui uma contradição? Assim Edith Stein põe em confronto a Idade Média e a Modernidade para daí extrair um conceito de filosofia cristã, mas aqui toca a “espinha dorsal” da questão, porque a filosofia medieval parte do ponto reflexivo tendo Deus como centro e critério de seu fundamento filosófico, enquanto que, a filosofia moderna parte do pressuposto do exercício da razão sem a ajuda da revelação divina, marcado pelo preconceito racional desde Descartes, o qual põe a divisão clara entre dois campos de conhecimentos independentes: fé e razão; Kant ao falar sobre a fé, diz que esta faz aparte do ato da vontade, e não há racionalidade dito de outra maneira, o indivíduo acredita se quiser, porque do ponto de vista da razão não temos experiências empíricas que comprovem, como por exemplo; se o mundo foi criado ou não, pois o mundo tem uma causa, mas não necessariamente um começo, enquanto que para a fé, o mundo tem um começo e uma causa como nos explica Herrero Francisco:

Se agora se fala de uma revelação e de fatos históricos que fundamentam uma crença histórica, esta só pode ter por base fatos em si indiferentes, que como tais são contingentes e que podiam ter sido de outro modo a crença histórica. “Contém em si, como todo conhecimento de experiência, não a consciência de que o objeto acreditado tem de ser assim e não de outra maneira, mas só que ele é assim. Com isso ela contém ao mesmo tempo a consciência de sua contingência.” (Rel B, 167). Por isso Kant vê esse fenômeno num primeiro momento como uma realidade cuja origem é irrelevante. A crença histórica, fundada sobre uma revelação empírica, é fruto de um acaso. Ele não nega propriamente a possibilidade interna de uma revelação divina, mas o que interessa acentuar é que sua origem, enquanto contingente, não pode ser determinada pela razão, da incondicionalidade. (8)

Sabemos, no entanto, que a fé traz questões novas para a filosofia, ou seja, o filósofo que crê na verdade revelada teria mais uma fonte e conhecimento, um conhecimento novo, isto é, alargaria seu campo de análise intelectual racional. “Além disso, o mundo, visto pelos olhos da fé, adquire um novo significado”.(9) Poderíamos dizer que existe razão na fé, por exemplo, quando o indivíduo crê no dado da revelação divina, primeiro ele acredita com a razão, embora não signifique que o indivíduo não possua emoção, sentimento, porém não é com o coração que ele fala sobre a Trindade, nesse ponto é a razão quem diz os motivos por que o indivíduo acredita em Deus, ou seja, junto com o sentimento vai a razão, pois segundo Tomás, há razão na fé. “É necessário recorrer a razão, a qual todos devem assentir”,(10) portanto, é dessa base que podemos encontrar argumentos para um discurso teológico, além do mais, a possibilidade de uma abertura de diálogo tanto para os que crêem ou não nos dados da fé. “Existem dois caminhos que conduz a verdade, se bem que a razão natural não pode chegar até a verdade suprema e elevada, pelo qual se possa alcançar um grau que seja possível excluir certos erros e demonstrar a harmonia da fé”.(11) A razão seria um caminho de diálogo para todo aquele que busca a verdade.
Edith Stein ao construir o arcabouço filosófico cristão, investiga a natureza filosófica entendida por Maritain ao apresentar a importância para a construção do sentido e da possibilidade de uma filosofia cristã, distingue a natureza e o estado da filosofia.
A natureza da filosofia seria o qual ela é em si, enquanto que o estado da filosofia seria como a filosofia se encarna em diversos contextos, dessa maneira Maritain concebe a filosofia como ato e hábito, cito no sentido em que realiza o pensamento dito de formar o ato intelectual na medida em que o indivíduo ao exercitar o pensamento torna-o ato e ao repetí-lo, este saber adquirido pouco a pouco vai tornando-se um hábito.
Edith Stein de início concorda com o pensamento maritaniano de que a natureza da filosofia nos abre à perspectiva de falarmos de ato e habito filosófico, entretanto, se distancia de Maritain, e parte de uma terceira concepção de filosofia como ciência, a noção de ciência como ato, hábito e um corpo de saberes no sentido de um arcabouço, forma de exprimir resultado numa filosofia que seja uma ciência cristã.

Por filosofia se podem entender estes dois significados. Fazer filosofia é ser ou ter uma vida espiritual.(o filósofo é filósofo ainda nos momentos em que não esteja num ciclo da filosofia). Além disso há um terceiro significado – e eu diria incluso que este terceiro significado é o que mais vale – a filosofia é uma ciência, a palavra latina scientia significa saber (no sentido de hábito e ato) e ciência, a linguagem teológica emprega a palavra ciência no sentido de saber (quando se fala de ciência como dom do Espírito Santo).(12)

Assim Edith Stein elabora uma filosofia como um corpo de conhecimento em que ela não faz um recorte do mundo, mas visa o todo, uma disciplina do qual levaria as outras ciências a um “acabamento”, na medida em que busca os princípios fundamentais, poderíamos extrair o estado cristão da filosofia já que a fé representa uma abertura de horizonte para a filosofia, pois quando ela toma a sério o dado da revelação divina como um corpo de investigação do cristianismo, com efeito a filosofia trata dos dados da realidade que estão cheios, mesclados com os da religião. Logo, se o filósofo crê no Deus da fé, tem uma certeza interior ao analisar o mundo do qual não excluiria essa certeza possibilitando uma nova visão do mundo, do ser e de suas relações com seus semelhantes sem necessariamente tornar-se teologia.
Se a tarefa da teologia é constatar os fatos da revelação enquanto tais e elaborar seu sentido e causalidade, incumbe a filosofia por em acordo com a fé e a teologia o que ela elaborou por seus próprios meios no que concerne a compreensão do ente por suas últimas causas.(13) Uma filosofia cristã concebida por Edith Stein não se trata, apenas, só para aqueles que crêem, mas defende que também a verdade revelada possa ser objeto de análise filosófica, já que a filosofia mira seu olhar para todas as manifestações do ser humano, ao mesmo tempo possibilitando não só o diálogo como também um campo reflexivo para o filósofo não-crente, na medida em que os dados da revelação são disponíveis à razão, assim não poderia negar como atitude fenomelógica a fé como fonte de verdade resultando “O perfectum opus é da consciência, a experiência interior em sua unidade, sem cisões,”(14) a consciência interior é quem atinge a totalidade; uma filosofia crista que possa revelar algo sobre o ser.

Desde o ponto de vista da filosofia cristã, não existe nenhum inconveniente para um trabalho comum. Pode ela tirara ensinamentos dos gregos e dos modernos para enriquecer-se segundo o princípio: examinar tudo e conservar o melhor. Por outra parte, pode por a disposição de outros que ela tenha que dar, deixando aos outros o ícone e a seleção. Paro o incrédulo, não há motivos reais de desconfiança em, relação com os resultados de seu método natural, posto que são a medida das amais abrangentes verdades da razão e ainda da verdade da fé. Ele é, pois, livre de empregar a marca da razão com todo rigor e recusar tudo o que não seja suficiente. Além do mais, dele depende seguir o caminho, tomando igualmente conhecimento dos resultados adquiridos por meio da revelação, não aceitará as verdades da fé empregadas como tese, contrariamente como o faz o crente, mas somente como ponto de partida. (hipótese).(15)
Para isso contribui também o fato de sustentar a exigência de apresentar diante dos novos conhecimentos sem o preconceito racional, estando aberto para aquilo que lhe é além da razão natural desvelando uma maior compreensão do mundo.

(1)Cf. Nota de rodapé de E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 43.
(2)G. REALE – D. ANTISERI, História da filosofia, 2, 231.
(3)JOÃO PAULO II, Fides et Ratio, 81.
(4)V. M. MARIANO, Dicionário do pensamento contemporâneo, São Paulo, 2000, 337.
(5)G. ETIENNE, O espírito da filosofia medieval, São Paulo, 2006, 45.
(6)G. ETIENNE, História da filosofia cristã, 11.
(7)V. M. MARIANO, Dicionário de pensamento contemporâneo, 338.
(8)F. H. JAVIER, Religião e História em Kant, São Paulo, 1991, 167.
(9)“Ademas, el mundo visto por los ojos de la fe ha adquirido un nuevo significado”. E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 40.
(10)G. REALE – D. ANTISERI, História da filosofia, 2, 213.
(11)E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 31.
(12)E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 32; “Por filosofia se suenden entender estos dos significados: hacer filosofia o tener una vida espiritual. (el filosofo es filosofo aun en los momentos em que no filosofa). Pero ademas hay um tercer significado – y yo diria incluso que este tercefr significado es el que mas vale – la filosofia es una ciência. Lá palavra latina scincia significa saber ( em el sentido de habitus y de ato) y ciência. El lenguaje teológico emplea tambiém la palavra ciência em el ciência como don del Spiritu Santo)”.
(13) “Se la tarea de la teologia es constatar los hechos de la revelación en cuanto tales y elaborar su sentido y causalidad, lê incumbe a la filosofia poner en acuerdo con la fé y la teologia lo que ela há elaborado por sus próprios médios en lo que concierne a la compreension del ente por sus últimas causas”. E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 229.
(14) J. SAVIAN, “Sentido e possibilidade da filosofia cristã, Segundo Edith Stein”, 229.
(15) “Desde el punto de vista de la filosofia cristana, no existe pues ningúm incoveniente para un trabajo comum. Puede ela sacar enseñazas de los gregos y de los modernos para enriquecerse según el princípio: examinar todo y conservar lo mejer. Por outra parte, puede poner a la disposicion de outro lo que ella tiene que dar, dejando a los otros el examen y la seleción. Para el incrédulo, no hay motivos reales de desconfianza en realación con los resultados de su método natural, puesto que son la medida de los mas grandes verdades ou la razón y aun de la verdad de la fé. El es, pues, livre de emprear em marco de la razón com todo rigor y recusar todo lo que no le sea suficiente. aun mas, de el depende seguir el camino con consotros tomando igualmente conocimento de los resultados adquiridos por médio de la revelación. No aceptará los lãs verdades de la fé empleadas como tesis, contrariamente e lo que hace el crey, ente, sino, solo como punto de partida (hipotesis)” E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 47.












terça-feira, 14 de julho de 2009

DA ESTRUTURA BÁSICA DA ALMA À ESPÉCIE DE ALMA FEMININA

Moisés Rocha Farias


Para podermos refazer o itinerário que levou Edith Stein à descoberta da especificidade da alma feminina, bem como o que a norteou e deu sentido a sua busca filosófica tornando-se objeto da realização específica de seu ser único e irrepetível na história humana, nos é necessário compreender o sentido de alma para nossa autora a mesma. Mas, antes mesmo de apresentarmos como E. Stein a concebe, se faz necessário um conceito geral:

O conhecimento e a compreensão da realidade da alma do ser humano, e a expressão desse conhecimento, sofreu suas lógicas vicissitudes ao longo da historia; mas, de uma maneira ou de uma outra, com sucesso maior ou menor, não faltaram nos tempos diversos, thinkers, escolas, etc. (salvo as exceções, por demais duvidosas, do materialismo, v.). De modo que se pode dizer que o conhecimento da alma humana, bem como principio vital general, bem, ao menos, como principio de conhecimento, de consciência e da vontade, bem como o imortal e imperecível de cada ser humano individual, é algo que pertence ao conhecimento natural, espontâneo e mais ou menos imediato, de todo homem”.[1]

E esta é a concepção de alma que Edith Stein assimila:

“Aparece como a ação combinada de forças diferentes: a força sensível, que se apresenta a respeito da apreensão dos dados sensíveis e nos impulsos sensíveis, e a força espiritual, que é uma força totalmente nova e diferente da primeira e se manifesta nas atividades e capacidades espirituais”.[2]

Em outras palavras, a alma é parte integrante na tríplice estrutura humana corpo-alma-espírito. Como estrutura, tanto o homem como a mulher “têm em seu ser as mesmas características humanas básicas”. [3] Assume uma dupla função: “quanto espírito, se eleva em sua vida espiritual acima dela mesma”. [4] ao corpo porém, “esta se manifesta... à semelhança dos animais”. [5]

Tal diferenciação homem-animal, se dá pela compreensão da alma sensitiva e da alma espiritual. Pode se afirmar certa semelhança desta primeira entre homem e animal, em sua força instintiva, em suas realidades sensoriais com os cinco sentidos que revelam a realidade de uma vida interior mesmo que restrita às emoções:

“É possível, portanto, detectar na esfera vital dois níveis, um sensível (sinnlich) e outro espiritual (geistig). Por um lado eles estão conexos de forma tal que a força espiritual é condicionada por aquela sensível – normalmente, de fato, a vivacidade do espírito desaparece com o cansaço do corpo – por outro lado, podemos constatar também a independência dos dois momentos – por exemplo, reconheço o valor de uma obra de arte, mas sou incapaz de sentir entusiasmo.” [6]

A partir deste momento desenvolve-se a distinção animal e homem. No homem e na mulher a alma sensitiva por ser restrita, limita-se a reagir aos dados apreendidos pelos sentidos que pela alma espiritual dá consciência não só do que foi apreendido, bem como a ação-reação do dado obtido. Só o homem e a mulher sabem que estão com frio ou alegres e só eles têm a liberdade de reagirem adequadamente, pois suas almas espirituais lhes capacitam a uma elevação daquilo que lhes são puramente animal dando-lhes uma maior amplitude em seus interiores pondo-lhes em contato com o transcendente.

O homem e a mulher vivem aqui a liberdade; essa é a essência de sua pessoa o que os caracteriza como um ser racional, capaz e humano em seu sentido mais genuíno. Sendo que tanto no homem quanto na mulher essas duas atividades da alma sensitiva e da alma espiritual estão em perfeita conexão. Ainda que se possa pensar em duas almas distintas nesse contexto, porém no ser humano existe somente uma alma com duas dimensões.

Em outras palavras, a vida do ser está entrelaçada pelos jogos de estímulos e respostas. É aqui que a alma desempenha sua função de intermediária entre o corpo e o espírito. Pelo conceito de alma é possível encontrar a posição adequada do Homem que está acima dos animais, pois se sabe de sua existência e dos movimentos de sua sensibilidade bem como de que ele não é puro espírito haja vista sua existencialidade. Dessa maneira, a alma é o principio de unidade do corpo humano. Ela e o corpo não são dois seres distintos; mas princípios distintos do mesmo ser. A alma constitui um “espaço interior no qual o eu se move livremente”. [7] Segundo Stein o interior é o ‘lugar’ onde a alma é a possessão de si mesmo tornando o eu consciente e livre para decidir suas ações.

Após um esboço geral do que seria a alma para Edith Stein e dos conceitos que nos facilitarão na compreensão do seu itinerário, agora apresentaremos as duas análises: a fenomenológica e a aristotélico-tomista, respectivamente, que apesar de serem independentes, porém são compatíveis entre si. Ambas possibilitaram a descoberta steiniana.

Análise fenomenológica

Utilizando o método fenomenológico[8][9] que compreende um processo abstrativo partindo do fenômeno, aquilo que primeiro salta aos olhos, Edith Stein analisa o ser humano em seus diversos níveis em busca da essência humana, o que de fato caracteriza o ser humano e de forma especial a mulher.

Em sua análise, Edith Stein percebe um feixe de diferenças, começando pela ‘hile’ (matéria) [10]. Percebendo que, anatomicamente, o homem possui diferenças nítidas em relação à mulher, bem como seu funcionamento se dá de maneira diversa. Existem aparelhos biológicos distintos nos diferentes sexos e logo lhe vem uma máxima tomista anima forma corporis [11]. Sob a luz deste princípio, E. Stein avança segura para sua descoberta. Com o discorrer do método, que cada vez mais suspende o resultado da análise para um campo transcendente do então chegado, ela chega ao ‘ethos’:

“Na acepção do termo, ethos exprime algo duradouro que regula os atos do ser humano, não se trata de uma lei imposta de fora ou de cima, antes, é algo que atua dentro do ser humano, uma forma interna, uma atitude de alma constante, aquilo que a escolástica chama de hábito. Tais atitudes constantes da alma conferem à variedade de comportamentos uma determinada marca homogênia, e é através dessa marca que eles se manifestam externamente.” [12]

O ethos, também visto como hábito possibilita a E. Stein, constatar mais um feixe de diferenças no nível comportamental psíquico, por hora analisado. No seu escrito sobre “O Ethos das profissões femininas”,[13] ela desenvolve uma série de outras características desse ethos feminino:

“A atitude da mulher tem em vista o pessoal-vivente e visa o todo. Cuidar, velar conservar, alimentar e promover o crescimento: esse é seu desejo natural, genuinamente maternal. O inanimado, a coisa lhe interessa, precipuamente, na medida em que está a serviço do pessoal-vivente; menos em si mesma. Um outro aspecto está ligado a esse: por natureza, ela é avessa a abstrações em qualquer sentido. O pessoal-vivente, objeto de suas preocupações, é um todo concreto e requer os cuidados e incentivos com um todo”. [14]

Edith Stein em sua palestra, “A vocação do homem e da mulher de acordo com a ordem natural e da graça”, [15] enfatiza esta idéia: “Faz parte da dedicação feminina, ao desenvolvimento correto das pessoas próximas, a preocupação com a ordem e a beleza de toda a casa para que se crie um ambiente propicio ao desenvolvimento de todos”. [16] Segundo ela, a mulher tem uma predisposição maternal que se une à de ser companheira. A alegria, a felicidade da mulher consiste justamente em dividir, compartilhar com outra pessoa de si mesma.

Segundo E. Stein o ethos masculino é identificado da seguinte maneira:

“O corpo e a mente do homem estão equipados para a luta e a conquista segundo sua vocação original de submeter a terra e de tornar-se seu senhor e rei. Nele atua o impulso de sujeitá-la pelo conhecimento e assim apropriar-se dela pelo espírito, mas de adquiri-la também como posse, com os prazeres que ela tem a oferecer e, finalmente, de transformá-la em sua própria criação pela ação formadora.”[17]

Esta discrição nos faz tomar consciência de que o homem está mais voltado para os assuntos de seu interesse; não lhe é natural uma atitude de colocar-se no lugar do outro. O Ethos masculino mostra-se exatamente paralelo ao ethos feminino: sua vocação natural sendo para a conquista, para a luta e proteção, faz dele um ser que tem em si uma profunda limitação de abraçar o todo. O contato do homem com seu interior lhe é distante, dificultando a manifestação de seus sentimentos.

Se formos coerentes com a máxima tomista da anima forma corporis, somos inevitavelmente levados a concluir que:

“Só quem estiver ofuscado pela paixão da luta poderá negar o fato óbvio de que o corpo e a alma da mulher foram formados para uma finalidade específica. A palavra clara e incontestável da escritura expressa aquilo que nos está ensinando a experiência diária, desde o inicio do mundo: a mulher é destinada a ser companheira do homem e a mãe dos seres humanos. Para isso está preparado seu corpo, é a isso corresponde igualmente sua peculiaridade psíquica. A existência dessa peculiaridade psíquica é, outra vez, um fato evidente da experiência;... onde as forças são tão diferentes, deve haver também um tipo de alma diferente, apesar da natureza humana comum”.[18]

Que todos guardando a honestidade dos fatos da realidade não poderão negar suas conclusões. Essa percepção, Edith Stein irá alicerçar junto ao pensamento aristotélico-tomista, o qual passaremos agora a analisar, na perspectiva de encontramos embasamentos filosóficos que nos assegurem a existência de uma alma feminina.

Análise aristotélico-tomista.

Dentro do rigor científico, Edith Stein confronta sua conclusão fenomenológica com o pensamento tradicional e depara-se com questões básicas da ontologia formal. De maneira mais simples, o que Aristóteles[19] já apresentava na filosofia primeira ou metafísica, e que foi também desenvolvida por Tomás de Aquino[20]. Segundo Edith Stein.

“Essa questão básica das questões femininas remete, porém, aos princípios da filosofia. Para poder respondê-la de maneira satisfatória, é necessário ter clareza a respeito da relação entre gênero, espécie, tipo, individuo, isto é, a respeito dos problemas básicos da ontologia formal que, para mim, é aquilo que Aristóteles visava com sua primeira filosofia”. [21]

Tendo manifestado o ponto de partida de E. Stein, poderemos também nós seguir seus passos. Por questões de conveniência e em se tratando de conferências para pessoas leigas em filosofia, E. Stein esquiva-se dos pormenores filosóficos apesar, de como vimos na citação acima, nos dá sua fonte salvaguarda de seu pensamento. Portanto, iremos aprofundar os conceitos da tradição aristotélico-tomista que nos possibilitará uma melhor compreensão.

O ser em quanto ente,[22] traz em si a existência como complemento da sua essência. Entendamos por ato de ser, aquilo que o faz ser, existir, caracterizando-se a existência como uma unidade e não como contingência. Esta relação para com Deus porém, recebe outra conotação. Ele não recebe de outrem sua existência, pois Deus é a existência como substância simples, perfeita, verdadeira e elevada o qual se torna princípio dos outros seres. Como é o caso do homem que é substância composta de forma e matéria, corpo e alma são ambos necessários para constituir o ser humano.

Esta substância composta que é o ser humano é que constitui a essência do mesmo, um corpo sem a alma não deve ser tido como ser humano, bem como uma alma sem corpo, não dá existência ao mesmo ser, como bem nos define Santo Tomás de Aquino: “É evidente que a essência de uma coisa compreende a matéria e a forma”.[23] Edith Stein, por sua vez, delineia as características do ser humano da seguinte forma:

“O ser humano é um ser que possui um corpo, uma alma e um espírito. Enquanto o homem é, por sua própria essência, espírito, ultrapassa a si mesmo, com sua vida espiritual e entra no mundo que se abre diante dele, sem que perca nada de si... No entanto, o espírito humano está condicionado pelo que lhe é superior e pelo que lhe é inferior: está contido num produto material que ele anima e forma de acordo com sua forma corporal. A pessoa humana carrega e engloba seu corpo e sua alma, mas ela é, ao mesmo tempo, levada e envolta por eles.” [24]

Devemos, portanto, entender a matéria como a capacidade de possibilidade da assimilação; ela por si mesma é informe. Forma é, pois a configuração externa das coisas, é a força interior que determina a matéria, já que, “é a essência que através da forma que é ato da matéria, a matéria se torna ente em ato concreto”. [25]

“A matéria adquire o ser em ato pelo fato de adquirir a forma”. [26] É a partir dessa determinação e pontencialização para a matéria, que podemos falar da existência de algo. Sendo o ser humano existente ele é em si matéria e forma, princípios estes distintos de um mesmo ser. A forma, e só ela, é quem determina o que é essencialmente este ser ou aquele. [27]

Seguindo a teoria tomista de que a matéria signata com a forma nos possibilita a individuação dos entes, [28] E. Stein, vê a forma como uma força determinadora que faz com que as coisas se diferenciem uma da outra. E por meio da diversidade de formação da matéria podemos então transcorrer para uma compreensão de gênero e espécie. Pois o que temos em mente é a busca de uma conceituação e se torna impossível tal intento analisando um único individuo particular. Pois bem, a diferenciação entre gêneros se dá na maneira em que a matéria é formalizada. Entre as espécies por sua vez se constituirá um agrupamento de modalidades específicas: como a espécie é proveniente do gênero, tal decorrência significa que tudo que encontro na espécie deve ser encontrado no gênero.

Edith Stein usa o conceito espécie a modo próprio, para descrever aquilo que todas as mulheres têm em comum e todos os homens têm em comum respectivamente. Isso de maneira alguma destrói o conceito de que tanto o homem como a mulher estão inseridos no conceito de espécie humana, consagrado pela antropologia.

Certa forma concretizará uma determinada espécie que E. Stein define assim: “Por espécie entende-se aqui algo fixo que não muda. A filosofia tomista usa nesse caso também o termo forma, referindo-se à forma interna que determina a estrutura de alguma coisa”.[29] Portanto, chegamos ao conceito de espécie tendo em mente as diferenciações manifestadas pela matéria concretizada em um individuo que por sua vez diante da multiplicidade do mesmo nos possibilita uma agrupação de indivíduos que receberam os mesmos efeitos formalizantes. Quanto a isso Edith Stein esclarece:

“Segundo a minha convicção, a espécie humana se desdobra na espécie dupla homem e mulher; de modo que a essência do ser humano, em que não deve faltar nenhum traço de um ou de outro lado, se manifesta de dupla maneira revelando-se a marca especifica em toda a estrutura do ser. Não é só o corpo ou as funções fisiológicas que são diferentes, a vida toda no corpo é diferente, a relação entre a alma e o corpo é diferente, e no âmbito da alma difere a relação entre o espírito e a sensitividade bem como relação entre as diversas forças espirituais. À espécie feminina corresponde à unidade e a integridade de toda a personalidade psicofísica, o desenvolvimento harmonioso das forças; a espécie masculina se destaca pela potencialização máxima de forças isoladas.”[30]

Com estas palavras, Edith Stein torna claro o seu pensamento acerca da existência de uma especificidade, a “alma feminina”, que para o universo filosófico soa como uma realidade nova, uma nova forma de conjecturamos a antropologia filosófica. Passaremos agora a contemplar mais de perto o comportamento e os efeitos da espécie da alma feminina.

Espécie de alma feminina.

Tendo percorrido os dois caminhos de investigação filosófica, da fenomenologia e da tradição aristotélico-tomista, podemos agora abordar o aspecto da espécie feminina que será desenvolvido utilizando os mesmos critérios, conjuntamente. Com as características abstraídas da fenomenologia bem como por meio do raciocínio aristotélico-tomista, Edith Stein afirma que mesmo sendo uma só a natureza humana, há distinções que se fazem notar entre homem e mulher, enquanto ser. Em ambos os casos, acontece um fenômeno chamado de individuação, mas que apresentaremos somente no próximo capítulo.

Apresentaremos neste sub-capítulo a visão de Edith Stein no que diz respeito às características típicas da mulher, tendo já esclarecido a existência da especificidade da alma feminina que ela pôde verificar pelos seus estudos e sua vivência empática, para uma melhor compreensão do ser feminino. A especificidade da mulher segundo E. Stein consiste em que:

“A atitude da mulher é pessoal sob vários aspectos. Primeiramente, ela gosta de dedicar-se com toda a sua pessoa àquilo que que (sic) está fazendo. Além disso, tem um interesse especial na pessoa viva, concreta, tanto no que diz respeito à própria vida quanto a outras pessoas e assuntos particulares”. [31]

Como ser específico, a alma feminina atribui um fim à mulher, uma vocação em que todo o seu ser está em função desse mesmo fim. Com isso, nos parece claro que, a mulher tem uma predisposição natural à maternidade e a ser companheira. Naturalmente ela apresenta uma sensibilidade e compreensão para com o outro segundo nos atesta E. Stein: “Em todas, encontro uma índole comum: o desejo de dar e de receber amor, e com isso, a aspiração de serem tiradas da estreiteza de sua existência real atual para serem guindadas a um ser e agir mais elevado”. [32] Até mesmo a ligação da alma com o corpo se dá de forma diferenciada.

A alma feminina está mais presente em todas as partes do corpo de modo que se sente mais atingida em seu íntimo por tudo que lhe acontece, enquanto para o homem o corpo assume mais o caráter de instrumento que está a seu serviço, o que provoca certo distanciamento. Tal fato incontestável é o recurso dado pela natureza feminina para executar sua missão como mulher. Porém, uma vez mal compreendido gera uma cultura do sexo frágil e o que deveria ser visto como a força é deturpado pela falta de formação.

A mulher trás presente em si uma agudeza espiritual, fato também incontestável que comumente nós ouvimos: “rezar é coisa de mulher”, sua sensibilidade ao transcendente lhe remete a viver em seu íntimo voltada em direção a Deus: “é um fato antigo, que a alma feminina se mostra especialmente receptiva para a religiosidade, de modo que era inevitável que também ela fosse atraída por esse movimento”. [33]

Nesta diferenciação que está estreitamente ligada à vocação materna da mulher, E. Stein acentua uma dupla possibilidade de vivenciá-la: uma de maneira espiritual e outra de maneira biológica. Mesmo que estas conferências de Edith Stein tenham sido em sua grande maioria proferidas a um publico feminino cristão católico, ela acredita que a mulher comporta em si esta abertura ao transcendente independente de religião ou credo.

É o caso, por exemplo, de uma mulher que profundamente tocada pela sua missão especifica dedica sua vida em favor de outros no celibato. Poderia tal mulher chegar à plenitude do ser feminino, já que a maternidade faz parte da essência feminina? Responderia E. Stein: “com toda certeza!”. Pois, da mesma forma que uma mulher seja mãe biologicamente falando ainda assim lhe é preciso todo um trabalho interior de maturação humano-espiritual para se chegar ao escopo de sua plena maturidade.

Segundo E. Stein a maternidade é uma atitude de alma, é um colocar-se completamente a serviço do outro que necessita de cuidado; é ser desperta e estar atenta à necessidade alheia. Por sua vez o ser companheira estar ao lado do homem, não se limita a relação marital, mas é antes um dar de si, de sua feminilidade, de sua capacidade de humanização, de fazer com que as coisas ao seu redor ganhem novas ‘cores’, as ‘cores’ da humanização. Pois, “o amor serviçal para com todas as criaturas, que é a essência da maternitas, também deve brotar espontaneamente do amor de Cristo. Por isso, a mulher que não é nem esposa nem mãe, precisa comprovar essa maternidade espiritual em suas atitudes e ações.” [34]

Não poderíamos esquecer um aspecto que foi conquistado no século passado pelas mulheres, a profissão. Como vimos no primeiro capitulo E. Stein viveu esse novo acontecer nas práticas femininas e em sua analise contempla o aspecto acima referido:

Essa atividade, economicamente ativa, é aceita como um mal necessário, sem muita reflexão ou resistência. Nas classes média e alta, a atividade profissional da mulher (com exceção de bem poucas ocupações) era considerada algo inaceitável e inconveniente desde a época da reforma, que negando o ideal da virgindade acabou restringindo a atuação da mulher ao seio da família, até há poucas décadas passadas.”[35]

Por outro lado, Edith Stein como uma mulher que está para além do seu tempo Também observa:

“É necessário que estejamos conscientes de que nos encontramos no começo de uma grande revolução cultural, que estamos passando pelas doenças infantis e que ainda falta realizar um trabalho essencial e básico; que é necessário voltar à natureza do homem e da mulher para podermos preparar uma formação e distribuição profissional, que corresponda à índole de cada um, de modo que alcancemos, aos poucos, uma inserção natural dos sexos no corpo social.”[36]

Neste contexto, a principal questão seria a conciliação da vida familiar de mãe, esposa, cuidar de uma casa com o trabalho fora de casa. Para E. Stein “não há profissão que não possa ser exercida por uma mulher.” [37] Contudo, é preciso perceber que se faz necessária cautela para que essa busca de uma profissão não seja simplesmente um ter que se esforçar à maneira dos homens, pois isso ocorre num prejudicial risco para a mulher, levando-a muitas vezes a expressar: “preciso trabalhar para não ser inferior aos homens”.

Com tudo isso, E. Stein, soube perceber os traços de mulheres que fizeram de sua vida uma lição e que mesmo enfrentando os riscos não perderam sua sensibilidade, característica esta peculiar de seu ser mulher:

“Apesar dessa imagem triste da média das mulheres, encontramos em todos os âmbitos da vida verdadeiras heroínas que na vida profissional ou familiar e na reclusão de um convento chegam a realizar milagres de desempenho. Todos nós conhecemos, seja dos anais da igreja, seja de nossa própria experiência: as mães que irradiam todo calor e toda a luz do lar, que criam nove filhos próprios..., mesmo assim, ainda conservam seu coração aberto para as necessidades dos outros.”[38]

Potencialidades existentes em seu ser, uma vez trabalhadas tornam a mulher uma potência, capaz de atos jamais vistos, de ações antes impensáveis. E é justamente para isto que E. Stein empreende uma verdadeira batalha nesta descoberta do ser feminino. O seu maior desejo estar em fazer com que a mulher não mais esteja paralisada em si mesma, presa a um pensamento de emancipação que nada mais é do que a ratificação de uma realidade machista, como veremos no capítulo seguinte.

Stein em sua análise conclui, “que o centro da alma feminina é a afetividade”,[39] justamente por uma busca de amar e ser amada. Sua preocupação se volta para o aspecto da formação, mas que para nós consiste no que une os indivíduos femininos na espécie feminina. A forma substancial é fechada em suas determinações de maneira a não admitir nenhuma outra atuação diferencial que possa vir a modificar a forma, portanto a mulher que quer viver sua missão de mãe e companheira precisa desenvolver-se. Caso contrário, conviveremos com um atrofiamento constante do ser mulher.

Seguindo o conceito de forma substancial que é a potencialização determinadora da matéria, que em sua constituição como forma potencializadora não há possibilidade de uma mudança. Portanto, um ser humano que possui em sua matéria a forma determinante do ser feminino ele possui essencialmente uma alma feminina, é constituída como mulher. Isso nos assegura que uma vez assumida na matéria a forma feminina, o seu ser mulher estará delimitado a tal forma.


[1] El conocimiento y comprensión de la realidad del a. humana, y la expresión de ese conocimiento, han sufrido sus lógicas vicisitudes a lo largo de la historia; pero, de un modo o de otro, con mayor o menor acierto, no han faltado en las diversas épocas, pensadores, escuelas, etc. (salvo las excepciones, por lo demás dudosas, del materialismo, v.). De modo que puede decirse que el conocimiento del a. humana, bien como principio vital general, bien, al menos, como principio de conocimiento, de conciencia o de voluntad, bien como lo inmortal e imperecedero de cada ser humano individual, es algo que pertenece al conocimiento natural, espontáneo y más o menos inmediato, de todo hombre http://www.canalsocial.net/GER/fic? id=5612&cat=filosofia

[2] BELLO. Ângela Ales, A fenomenologia do ser humano. Pág. 155

[3] STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. Pág. 207.

[4] IDEM, pág. 59.

[5] IBIDEM

[6] BELLO. Ângela Ales. A fenomenologia do ser humano. Pág. 154

[7] STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. Pág. 59

[8] FENONENOLÓGIA, única noção hoje viva de fenomenologia é a anunciada por Hussel em Investigações lógicas... e depois desenvolvida por ele mesmo nas obras seguintes. O próprio Hussel preocupou-se em eliminar a confusão entre psicologia e fenomenologia. Esclareceu que psicologia é a ciência de dados de fato; os fenômenos que ela considera são acontecimentos reais que, juntamente com os sujeitos as que pertencem, inserem-se no mundo espaço-temporal. A F. (que ele chama de “pura” ou “transcendental”) é a ciência de essências (portanto, “eidética”) e não de dados de fato, possibilitada apenas pela redução eidética, cuja tarefa é expurgar os fenômenos psicológicos de suas características reais ou empíricas e levá-los para o plano da generalidade essencial. A redução eidética, vale dizer, a transformação dos fenômenos em essências, também é redução fenomenológica em sentido estrito, porque transforma esses fenômenos em irrealidades... Com esse significado, a F. constitui uma corrente filosófica particular, que pratica a filosofia como investigação fenomenológica, ou seja, valendo-se da redução fenomenológica e da epoché. Os resultados fundamentais a que esta investigação levou Hussel podem ser resumidos da maneira seguintes: 1º O reconhecimento do caráter intencional da consciência, em virtude do qual a consciência é um movimento de transcendência em direção ao objeto e o objeto se dá ou se apresenta à consciência, “em carne e osso” ou “pessoalmente”; 2º evidencia da visão (intuição) do objeto devida à presença efetiva do objeto; 3º generalização da noção de objeto, que compreende não somente as coisas matérias, mas também as formas de categorias, as essências e os “objetos ideais” em geral; 4º Caráter privilegiado da “percepção imanente”, ou seja, da consciência que o eu tem das suas próprias experiências, porquanto nessa percepção aparecer e ser coincidem perfeitamente, ao passo que não coincidem na intuição do objeto externo, que nunca se identifica com suas aparições à consciência, mas permanece além delas. (ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de filosofia, Pág. 438)

[9] MÉTODO FENOMENOLÓGICO, por se trata de um método, se faz necessário expor como E. Stein procede com o mesmo. Ela foi a que realizou a sua formação fenomenologia mais diretamente com seu criador sendo sua assistente logo depois de laurear-se. O fato de não concordar com a idealidade do conteúdo cognitivo proposto por Husserl bem como um distanciamento das perguntas metafísicas acerca da origem do eu cognitivo. Ela “afirma ter identificado a essência da essência, que consiste não só no ser essencial, mas também no ser atual-real, nos seus objetos” (BELLO. Ângela Ales, A fenomenologia do ser humano. Pág. 89). Seu objeto de estudo compreendendo questões da existência dentre outros não mais possibilitara restringir-se a fenomenologia. Todavia, nas suas investigações que caracterizam sua originalidade ela permanece fiel ao principio fenomenológico que antes de ser um repudio é ao ser ver a possibilidade de uma ampliação do método.

[10] matéria (do latim materia) Um dos principios que constitue a realidade natural, isto é, os corpos. São as seguintes as principais definições dadas da M.: 1ª M. Como sujeito; 2ª M. Como potencia; 3ª M. Como extensão; 4ª M. Como força... 2ª...Aristoteles identifica a M. Com a potencia: “todas as coisas produzidas, seja pela natureza, seja pela arte, têm M., pois a possibilidade que cada uma tem de ser ou não ser é a M. De cada uma”... Como potência operante, a M. Não é um principio necessariamente corporéo. (ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de filosofia, Pág. 647)

[11] Cf. STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. Pág.57

[12] STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. pág. 55

[13] Cf. IBIDEM

[14] IDEM. Pág.57

[15] Cf. STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. pág. 73

[16] IDEM. Pág. 96

[17] STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. pág. 88

[18] IBIDEM

[19] ARISTOTELISMO, por esse termo enterdem-se alguns fundamentos da doutrina de Aristóteles que passaram à tradição filosofica ou que inspiraram as escolas ou os movimentos que se reportam mais diretamente ao próprio Aristóteles, como a escola peripatética... Tais fundamentos podem ser resumidos da seguinte forma: ... 2º Conceito de metafisica como filosofia primeira e teoria da substancia, assim como fundamento da enciclopédica completa das ciências. 3º Doutrina das quatro causas (formal,material, eficiente, final) doutrina do movimento como passagem da potencia ao ato, que permitiram a interpretação de toda a realidade natural... As várias correntes do A. Só se reportaram, habitualmente, alguns desses fundamentos; isso explica por que o a. Ora apareceu como metafísica teológica (na Escolástica medieval), ora como espiritualismo (no Renascimento), ora como espiritualismo (em algumas interpretações modernas). (ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de filosofia, Pág. 79).

[20] Tomismo, fundamentos da filosofia de S. Tomás, conservados e defendidos pelas correntes medievais e modernas que nele se inspiram. Podem ser assim resumidos:...3º Caráter abstrativo do conhecimento, que consiste em abstrair do objeto, em qualquer caso, a espécie sensivel ou a espécie inteligivel(que corresponde à essência da coisa). 4º A individuação depende da matéria assinalada. (ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de filosofia, Pág. 962)

[21] STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. Pág.187

[22] “Ente constitui tudo aquilo acerca de que se pode construir uma proposição afirmativa”. Aquino. Sto. Tomás de. Os pensadores. Pág 9

[23] IDEM. Pág 10.

[24] JACINTA, Turolo Garcia. Edith Stein, e a formação da pessoa humana.pág.59

[25] IDEM. Pág. 9

[26] MIRANDA, Maria do Carmo Tavares de. O ser da matéria, pág 85.

[27] Cf. Aquino. Sto. Tomás de, Os pensadores. Pág11

[28] Cf. MIRANDA, Maria do Carmo Tavares de. O ser da matéria, pág. 97.

[29] STEIN, Edith. A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça. Pág. 186

[30] IDEM. Pág.206

[31] IDEM. Pág 282

[32] IDEM. Pág. 102

[33] IDEM, pág. 164

[34] IDEM, pág. 224

[35] IDEM. Pág.160

[36] IDEM. Pág161

[37] IDEM. Pág. 61

[38] IDEM. Pág. 69

[39] IDEM pág. 122