IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL EDITH STEIN

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Uma controvérsia sobre a possibilidade de uma filosofia cristã

KÁTIA GARDÊNIA DA SILVA COELHO


Nosso itinerário parte sob o aspecto polêmico no começo do século XX, sobre a discussão: o que era filosofia e o que era filosofia da história, se há uma filosofia ou várias filosofias, se é possível que exista uma filosofia religiosa do ponto de vista da Igreja; pergunta-se sobre a questão de uma ou mais filosofias que à represente. Entretanto, como falar de uma filosofia religiosa ou propriamente de caráter cristão se a filosofia nasce na Grécia, de uma tradição racional com argumentos lógicos e sistemáticos próprio do pensamento grego? Como a filosofia poderia apelar, ao mesmo tempo, para algum tipo de revelação divina e conseguir sua autonomia? Logo, cria-se um ambiente contraditório, uma “confusão babilônica”.
Tal problema foi objetivo de várias controvérsias, sobretudo em 1933 (data de uma reunião da sociedade francesa de filosofia dedicada ao tema)¹, poderíamos citar os nomes mais relevantes dessas discussões: E. Brehier, León Brunschvicg, E. Gilson, Jacques Maritain, Edith Stein e outros. Queremos apresentar uma breve noção sobre a expressão filosófica cristã, algumas das divergentes posições para nos deter na referida concepção, não tanto para resolver, mas para refletir sobre o conceito de filosofia cristã, mas essa problemática da relação entre fé e razão aparece em vários autores antigos dentre eles São Justino e Santo Agostinho, para eles filosofia cristã seria a autêntica sabedoria teológica, na qual a verdade revelada poderia se articular com a razão num único corpo doutrinário.
Na vião de Santo Agostinho – seu modo de pensar após a sua conversão – , a fé adquiriu-lhe novos horizontes; a partir daí nascia a filosofia cristã começando com os Padres gregos. Entretanto Agostinho começou um amadurecimento com esses nomes de forma que com Tomás aconteceu propriamente uma verdadeira reviravolta no pensar filosófico cristão.
Tomás tinha a convicção de que o homem e o mundo possuem autonomia, portanto o individuo é capaz de fazer uso da reflexão racional pura para compreender e dominar o mundo. Segundo Tomás, tanto a fé quanto a razão provém de Deus porque ele é o ser supremo e perfeito, criador do ser enquanto tal, não só das formas do ser.²

Santo Tomás percebeu que a natureza, objeto próprio da filosofia, pode contribuir para a compreensão da revelação divina. Desse modo, a fé não teme a razão,mas solicita-se e confia nela como a graça supõe a natureza e leva-a a perfeição, assim, também à fé supõe e aperfeiçoa a razão. Está iluminada pela fé, fica liberta das fraquezas e limitações causadas pela desobediência do pecado, e recebe a força necessária para elevar-se até ao reconhecimento do mistério de Deus Uno e Trino. Embora sublinhado o caráter sobrenatural da fé, o Doutor angélico não esqueceu o valor da racionalidade da mesma; antes, consegue penetrar profundamente e especificar o sentido de tal racionalidade. Efetivamente, a fé, é de algum modo “exercitação do pensamento”, a razão do homem não é anulada nem humilhada, quando presta assentimento ao conteúdo da fé.³

Diante das controvérsias acerca da expressão filosófica cristã, há aqueles que concordam e aqueles que discordam, há os acreditam nos dados da revelação divina, como os que não acreditam, por exemplo: Brunschvicg acredita que a verdade é a mesma, com isso não há necessidade do objetivo cristã a realidade da filosofia, pois o objetivo cristão negaria o substantivo filosofia(4) porque o dado divino se apresenta como uma verdade inquestionável. Enquanto que, a filosofia busca inquietamente a verdade. Também Brehier busca uma filosofia cristã conforme o magistério da Igreja, a qual seria a perca da liberdade filosófica. Assim esses pensadores e outros defendem a tese de que não há a possibilidade de uma filosofia cristã, em contra partida Gilson e Maritain concordam com a existência de uma filosofia cristã, vejamos o que diz E. Gilson: “Chamo pois de filosofia cristã, toda filosofia que, embora distinga formalmente as duas ordens, considere a revelação cristã uma auxiliar indispensável da razão”.(5) Dessa maneira a filosofia cristã aspira um olhar mais ampliado acerca da realidade no sentido de reunir a teologia e a filosofia numa visão harmoniosa diante das questões do mundo, ou seja, a revelação proporciona ao pensador cristão uma visão geral da reflexão filosófica. (6)
Gilson defende que o espírito de toda filosofia cristã é teológico. Para Maritain a filosofia, pelo menos a filosofia moral, tem uma dependência essencial da teologia pelo qual deve estar em submissão à fé, para que possa tornar-se uma autentica ciência e esteja preparada ao seu objetivo de natureza humana. (7)
Em princípio, a filosofia cristã mantém-se aberta a toda e qualquer questão filosófica tendo o olhar no passado para erguer um edifício em bases novas com o objetivo de melhorara e aprofundar o conhecimento, para então, enfrentarmos os problemas contemporâneos, já que a filosofia cristã possui este caráter de uma visão total da realidade, empenhando-se em penetrar mais profundamente nos problemas gerais e não em questões isoladas. Assim, a revelação divina proporciona ao pensador um conjunto harmonioso acerca da realidade resultando em beneficio a filosofia.
Edith Stein tanto concorda com o que fora dito em beneficio sobre a expressão filosófica cristã, quanto do pressuposto da doutrina do conhecimento elaborado unicamente da razão natural proposto por Tomás de Aquino, pelo qual ela procura estabelecer um diálogo com o pensamento filosófico medieval e aquele da modernidade com a pretensão de analisar o sentido e a possibilidade de uma filosofia cristã Entretanto, é possível haver um diálogo comum tendo em vista algo tão discrepante em relação a fé e a razão? A filosofia poderia falar do Deus revelado da fé, e continuar sendo livre ou há aqui uma contradição? Assim Edith Stein põe em confronto a Idade Média e a Modernidade para daí extrair um conceito de filosofia cristã, mas aqui toca a “espinha dorsal” da questão, porque a filosofia medieval parte do ponto reflexivo tendo Deus como centro e critério de seu fundamento filosófico, enquanto que, a filosofia moderna parte do pressuposto do exercício da razão sem a ajuda da revelação divina, marcado pelo preconceito racional desde Descartes, o qual põe a divisão clara entre dois campos de conhecimentos independentes: fé e razão; Kant ao falar sobre a fé, diz que esta faz aparte do ato da vontade, e não há racionalidade dito de outra maneira, o indivíduo acredita se quiser, porque do ponto de vista da razão não temos experiências empíricas que comprovem, como por exemplo; se o mundo foi criado ou não, pois o mundo tem uma causa, mas não necessariamente um começo, enquanto que para a fé, o mundo tem um começo e uma causa como nos explica Herrero Francisco:

Se agora se fala de uma revelação e de fatos históricos que fundamentam uma crença histórica, esta só pode ter por base fatos em si indiferentes, que como tais são contingentes e que podiam ter sido de outro modo a crença histórica. “Contém em si, como todo conhecimento de experiência, não a consciência de que o objeto acreditado tem de ser assim e não de outra maneira, mas só que ele é assim. Com isso ela contém ao mesmo tempo a consciência de sua contingência.” (Rel B, 167). Por isso Kant vê esse fenômeno num primeiro momento como uma realidade cuja origem é irrelevante. A crença histórica, fundada sobre uma revelação empírica, é fruto de um acaso. Ele não nega propriamente a possibilidade interna de uma revelação divina, mas o que interessa acentuar é que sua origem, enquanto contingente, não pode ser determinada pela razão, da incondicionalidade. (8)

Sabemos, no entanto, que a fé traz questões novas para a filosofia, ou seja, o filósofo que crê na verdade revelada teria mais uma fonte e conhecimento, um conhecimento novo, isto é, alargaria seu campo de análise intelectual racional. “Além disso, o mundo, visto pelos olhos da fé, adquire um novo significado”.(9) Poderíamos dizer que existe razão na fé, por exemplo, quando o indivíduo crê no dado da revelação divina, primeiro ele acredita com a razão, embora não signifique que o indivíduo não possua emoção, sentimento, porém não é com o coração que ele fala sobre a Trindade, nesse ponto é a razão quem diz os motivos por que o indivíduo acredita em Deus, ou seja, junto com o sentimento vai a razão, pois segundo Tomás, há razão na fé. “É necessário recorrer a razão, a qual todos devem assentir”,(10) portanto, é dessa base que podemos encontrar argumentos para um discurso teológico, além do mais, a possibilidade de uma abertura de diálogo tanto para os que crêem ou não nos dados da fé. “Existem dois caminhos que conduz a verdade, se bem que a razão natural não pode chegar até a verdade suprema e elevada, pelo qual se possa alcançar um grau que seja possível excluir certos erros e demonstrar a harmonia da fé”.(11) A razão seria um caminho de diálogo para todo aquele que busca a verdade.
Edith Stein ao construir o arcabouço filosófico cristão, investiga a natureza filosófica entendida por Maritain ao apresentar a importância para a construção do sentido e da possibilidade de uma filosofia cristã, distingue a natureza e o estado da filosofia.
A natureza da filosofia seria o qual ela é em si, enquanto que o estado da filosofia seria como a filosofia se encarna em diversos contextos, dessa maneira Maritain concebe a filosofia como ato e hábito, cito no sentido em que realiza o pensamento dito de formar o ato intelectual na medida em que o indivíduo ao exercitar o pensamento torna-o ato e ao repetí-lo, este saber adquirido pouco a pouco vai tornando-se um hábito.
Edith Stein de início concorda com o pensamento maritaniano de que a natureza da filosofia nos abre à perspectiva de falarmos de ato e habito filosófico, entretanto, se distancia de Maritain, e parte de uma terceira concepção de filosofia como ciência, a noção de ciência como ato, hábito e um corpo de saberes no sentido de um arcabouço, forma de exprimir resultado numa filosofia que seja uma ciência cristã.

Por filosofia se podem entender estes dois significados. Fazer filosofia é ser ou ter uma vida espiritual.(o filósofo é filósofo ainda nos momentos em que não esteja num ciclo da filosofia). Além disso há um terceiro significado – e eu diria incluso que este terceiro significado é o que mais vale – a filosofia é uma ciência, a palavra latina scientia significa saber (no sentido de hábito e ato) e ciência, a linguagem teológica emprega a palavra ciência no sentido de saber (quando se fala de ciência como dom do Espírito Santo).(12)

Assim Edith Stein elabora uma filosofia como um corpo de conhecimento em que ela não faz um recorte do mundo, mas visa o todo, uma disciplina do qual levaria as outras ciências a um “acabamento”, na medida em que busca os princípios fundamentais, poderíamos extrair o estado cristão da filosofia já que a fé representa uma abertura de horizonte para a filosofia, pois quando ela toma a sério o dado da revelação divina como um corpo de investigação do cristianismo, com efeito a filosofia trata dos dados da realidade que estão cheios, mesclados com os da religião. Logo, se o filósofo crê no Deus da fé, tem uma certeza interior ao analisar o mundo do qual não excluiria essa certeza possibilitando uma nova visão do mundo, do ser e de suas relações com seus semelhantes sem necessariamente tornar-se teologia.
Se a tarefa da teologia é constatar os fatos da revelação enquanto tais e elaborar seu sentido e causalidade, incumbe a filosofia por em acordo com a fé e a teologia o que ela elaborou por seus próprios meios no que concerne a compreensão do ente por suas últimas causas.(13) Uma filosofia cristã concebida por Edith Stein não se trata, apenas, só para aqueles que crêem, mas defende que também a verdade revelada possa ser objeto de análise filosófica, já que a filosofia mira seu olhar para todas as manifestações do ser humano, ao mesmo tempo possibilitando não só o diálogo como também um campo reflexivo para o filósofo não-crente, na medida em que os dados da revelação são disponíveis à razão, assim não poderia negar como atitude fenomelógica a fé como fonte de verdade resultando “O perfectum opus é da consciência, a experiência interior em sua unidade, sem cisões,”(14) a consciência interior é quem atinge a totalidade; uma filosofia crista que possa revelar algo sobre o ser.

Desde o ponto de vista da filosofia cristã, não existe nenhum inconveniente para um trabalho comum. Pode ela tirara ensinamentos dos gregos e dos modernos para enriquecer-se segundo o princípio: examinar tudo e conservar o melhor. Por outra parte, pode por a disposição de outros que ela tenha que dar, deixando aos outros o ícone e a seleção. Paro o incrédulo, não há motivos reais de desconfiança em, relação com os resultados de seu método natural, posto que são a medida das amais abrangentes verdades da razão e ainda da verdade da fé. Ele é, pois, livre de empregar a marca da razão com todo rigor e recusar tudo o que não seja suficiente. Além do mais, dele depende seguir o caminho, tomando igualmente conhecimento dos resultados adquiridos por meio da revelação, não aceitará as verdades da fé empregadas como tese, contrariamente como o faz o crente, mas somente como ponto de partida. (hipótese).(15)
Para isso contribui também o fato de sustentar a exigência de apresentar diante dos novos conhecimentos sem o preconceito racional, estando aberto para aquilo que lhe é além da razão natural desvelando uma maior compreensão do mundo.

(1)Cf. Nota de rodapé de E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 43.
(2)G. REALE – D. ANTISERI, História da filosofia, 2, 231.
(3)JOÃO PAULO II, Fides et Ratio, 81.
(4)V. M. MARIANO, Dicionário do pensamento contemporâneo, São Paulo, 2000, 337.
(5)G. ETIENNE, O espírito da filosofia medieval, São Paulo, 2006, 45.
(6)G. ETIENNE, História da filosofia cristã, 11.
(7)V. M. MARIANO, Dicionário de pensamento contemporâneo, 338.
(8)F. H. JAVIER, Religião e História em Kant, São Paulo, 1991, 167.
(9)“Ademas, el mundo visto por los ojos de la fe ha adquirido un nuevo significado”. E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 40.
(10)G. REALE – D. ANTISERI, História da filosofia, 2, 213.
(11)E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 31.
(12)E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 32; “Por filosofia se suenden entender estos dos significados: hacer filosofia o tener una vida espiritual. (el filosofo es filosofo aun en los momentos em que no filosofa). Pero ademas hay um tercer significado – y yo diria incluso que este tercefr significado es el que mas vale – la filosofia es una ciência. Lá palavra latina scincia significa saber ( em el sentido de habitus y de ato) y ciência. El lenguaje teológico emplea tambiém la palavra ciência em el ciência como don del Spiritu Santo)”.
(13) “Se la tarea de la teologia es constatar los hechos de la revelación en cuanto tales y elaborar su sentido y causalidad, lê incumbe a la filosofia poner en acuerdo con la fé y la teologia lo que ela há elaborado por sus próprios médios en lo que concierne a la compreension del ente por sus últimas causas”. E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 229.
(14) J. SAVIAN, “Sentido e possibilidade da filosofia cristã, Segundo Edith Stein”, 229.
(15) “Desde el punto de vista de la filosofia cristana, no existe pues ningúm incoveniente para un trabajo comum. Puede ela sacar enseñazas de los gregos y de los modernos para enriquecerse según el princípio: examinar todo y conservar lo mejer. Por outra parte, puede poner a la disposicion de outro lo que ella tiene que dar, dejando a los otros el examen y la seleción. Para el incrédulo, no hay motivos reales de desconfianza en realación con los resultados de su método natural, puesto que son la medida de los mas grandes verdades ou la razón y aun de la verdad de la fé. El es, pues, livre de emprear em marco de la razón com todo rigor y recusar todo lo que no le sea suficiente. aun mas, de el depende seguir el camino con consotros tomando igualmente conocimento de los resultados adquiridos por médio de la revelación. No aceptará los lãs verdades de la fé empleadas como tesis, contrariamente e lo que hace el crey, ente, sino, solo como punto de partida (hipotesis)” E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 47.












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