IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL EDITH STEIN

domingo, 5 de julho de 2009

UMA REFLEXÃO SOBRE O SENTIDO DO SER EM EDITH STEIN

Ursula Anne Matthias*
Kátia Gardênia da Silva Coelho **


Edith Stein conservou o ponto de partida do seu anseio sob ato e potência, focalizando o problema do ser, apresentando a comparação entre o pensamento tomístico e o fenomenológico, ou seja, uma análise existencial fenomenológico do ser humano aberto ao estranho pelo qual faz uma determinada experiência; sendo assim, o ser humano é considerado o ser finito por excelência.
Nas investigações sobre o sentido do ser, busca estabelecer um diálogo com o pensamento medieval e o pensamento contemporâneo, para abstrair o conceito de filosofia cristã que possa revelar algo sobre o ser, resultando numa maior compreensão da realidade. Em “Ser finito e Ser eterno”, o próprio ser é reconhecido como finito e limitado, um ser temporal, enquanto ser essencial, encontra-se em um ser que não é subordinado à limitação qualitativa do ser finito.
A atualidade deve ser compreendida como realidade. Portanto, essa realidade significa o perfeito acabamento do ser, cujo efeito e manifestação consiste na atividade, visto que, no indivíduo a atualidade significa o verdadeiro modo do ser e de atualizar suas próprias faculdades, examinando o alcance da existência do eu como fonte de conhecimento. Entretanto, o ser perfeito não pode ser considerado o ser potencial, visto que a perfeição está na realidade e, ao mesmo tempo, na mente de Deus porque Ele abrange tudo e possui uma existência transcendente.
Não poderíamos esquecer que Edith Stein quando foi assistente de Husserl em Friburgo, quando se orientava para a fenomenologia; época em que entrou em contato com Heidegger,[1]ainda que seus caminhos tenham sido diferentes, enquanto este se encaminhou para o existencialismo, Edith Stein seguiu o itinerário da fé, então, após sua leitura da obra “O ser e o tempo”, de Heidegger, surgiu-lhe a necessidade de contrapor seu pensamento sobre a questão do sentido do ser; dessa maneira apresenta um apêndice na obra “Ser finito e ser eterno” sobre a filosofia existencial de Heidegger. Esta obra, publicada somente em 1951, de início era uma elaboração da doutrina do ato e potência segundo a visão tomística, como também, podemos dizer, recebeu forte influência do Padre Przywara, de H. Conrad Martins e outros.
O título “Ser finito e Ser eterno”, brota dessa experiência do indivíduo com o divino, certamente, uma nova contribuição para a filosofia que busca investigar e interpretar a realidade.

2. Uma reflexão sobre o sentido do ser

O ponto de vista fenomenológico, tratado na obra “Ser finito e Ser eterno”, é importante e preliminar, dele pode surgir uma abertura ao estranho no campo de análise filosófica, permitindo uma reflexão sobre o sentido do ser, através da relação do Criador com a criatura, uma tomada de posição referente aos diversos pontos de vista, e da possibilidade de uma filosofia cristã.
Edith Stein, por sua vez, parte da doutrina da via do ato e da potência em Tomás, para elaborar as questões relativas ao ser. No entanto, para ela, é necessário olhar as noções particulares dos sistemas filosóficos, já que, a filosofia engloba o todo, com a pretensão de apresentar um caminho comum, para todos aqueles que buscam a verdade. Nessa perspectiva, a metafísica de Tomás trata de uma filosofia do ser, porém, ao mergulhar nas discussões sobre a potência, chega a perguntar sobre o problema de Deus que possui a potência, desembocando, assim, num duplo significados de noções referentes à potencia e ao ato,[2] que podemos observar nas seguintes palavras o que significa:

O conjunto do sistema de noções fundamentais está divida por uma linha radical que, começando pelo ser, divide cada noção em dois aspectos muito diferente: não se pode dizer o mesmo com idêntico sentido de Deus e das criaturas. Se apesar disto de podem empregar as mesmas expressões para Deus e as criaturas, se deve a que os términos não são unívocos nem tão pouco absolutamente equívocos, porém possuem entre si uma relação de concordância, d analogia, pelo que se poderiam dar as linhas de separação, o nome de analogia, entes, e dizer, a relação entre Deus e a criatura.[3]

Sendo assim, poderíamos falar de potência e Deus sem negar ao ato, ou seja, existe uma distinção clara entre a potência ativa e a potência passiva, a primeira refere-se a Deus, pois, difere do ato da criatura que necessita de um inicio e um fim, tendo por pressuposto uma potência passiva, enquanto que a potência de Deus não necessita nem de um começo e nem de um fim, porque ela subsiste desde toda a eternidade: Deus é ato puro.
Neste contexto para captar tais dimensões sob o sentido do ser, Edith Stein fundamenta o conceito de ato, entendido como atualidade: o verdadeiro modo do ser, a capacidade do desenvolvimento intelectual e espiritual num aspecto perenes, atitude de não parar de pensar e questionar.
Tomás, ao desenvolver a questão do ato e potência no campo filosófico aristotélico, constrói um discurso fundamentado, inicialmente, pela razão natural: “Deixar de utilizar essa força, mesmo que em nome de uma luz superior, seria deixar de lado uma exigência, primordial e natural.”[4] Encontramos o ponto chave do pensamento steiniano, ao fazer referência aos antigos sistemas filosóficos, visto como luz para ao questionamentos modernos, tendo, por conseqüência, fundamentos sólidos para filosofia acolher os dados da fé.
Edith Stein, ao aprofundar a questão da doutrina de ato e potência, elabora uma compreensão mais vasta sobre os modos do ser, constituindo uma possibilidade de se explicar o ser humano a partir dessa relação com o ser eterno. Desse modo, mira o olhar para o campo das investigações da consciência, visando, de forma predominante, no eu, ou seja, quando o ser humano se volta pra si mesmo como um eu vivo e existente, consciente de si, então, reconhece que há um outro ser, um outro eu diferente, pelo qual, pouco a pouco, vai descobrindo que esse outro ser não é um ser temporal, mas um ser puro, ser eterno, resultado dessa relação do ser temporal como o ser eterno, na medida em que são idéias que o espírito descobre em si mesmo.

Porque donde queira – na vida de agostinho, no eu penso de Descartes, no ser consciente (bewusstsein) de Husserl o donde queira se encontrar um eu sou. Esta não é uma conclusão como a formula parece indicá-lo: cogito ergo sum (penso logo existo), mas o eu sou é captado imediatamente: que eu penso, que eu sinto, que eu queira ou que me dirija intelectualmente de qualquer maneira que seja, eu sou e me dou conta deste ser.[5]

Esse dar-se conta do outro ser, manifesta-o tal como é em si mesmo, de forma diferente como o ser e não-ser, visto que, desta diferença se revela a idéia do ser puro, que não possui o não-ser, revelando-se não como temporal, mas eterno, isto é, o ser temporal é uma imagem que tem certa semelhança com o original, porém, ao mesmo tempo oferece mais dessemelhanças.
Também neste caso, colocar em evidência a idéia do ser e do não-ser, orienta-nos, ao mesmo tempo, ao conceito de atualidade, ou seja, o ser que revelou era presente e real, pelo qual poderíamos atribuir o conceito de ser plenamente vivo. “O ser presente e real do momento não é pensável como existente por si mesmo, do mesmo modo que não se pode imaginar o ponto fora da linha e o momento mesmo sem uma duração temporal”.[6]
O nosso ser entendido como devir, está a buscar o sentido do ser verdadeiro, entretanto, esse ser verdadeiro se revela a nós como ato puro, perfeito e eternamente imutável.[7]Além disso, queremos destacar que as verdades da fé, por exemplo a Trindade e a criação de todo ente finito[8] pelo Verbo Divino, podem nos iluminar na busca da investigação filosófica sobre a questão do ser, portanto é uma filosofia que, ao analisar o ser, abre-se para o sentido do conhecimento verdadeiro da fé, para daí extrair a possibilidade de uma filosofia cristã que seja comum a todos que buscam a verdade
A nossa reflexão, por conseguinte, limitou-se a considerar uma breve apresentação sobre a relação do homem com Deus, na obra “Ser finito e ser Eterno”, sendo a essa relação o caráter comum para a investigação filosófica aberta ao estranho.

3. A imagem do Criador na criatura

A relação do “eu sou” divino com a diversidade do ente finito e a analogia entes mais genuíno, possui seu arquétipo no “eu sou” divino, tornando-se uma mesma significação, mas o Ser Divino, na criação, não contém em tudo, absolutamente, o mesmo significado comum, pois convém compreender que essa relação acontece por participação de um ser único, que torna compreensível o mistério divino que desvela, e, ao mesmo tempo, esconde o mistério. Por analogia, enquanto relação de imagens, existe uma diferença entre o Ser Eterno e o ser finito, visto que, quando Deus cria um ser autônomo, outro ser se encontra fora do Ser Divino, isso se explica da seguinte forma:
Nessas condições, é provável conhecer o sentido da criação. O que é criado não é algo perfeito, mas apenas uma imagem parcial de Deus, o Eterno, o incriado e o infinito. De fato, não há nada absolutamente semelhante a si mesmo.
Segundo Edith Stein, a análise acerca da compreensão do sentido do ser nos propõe uma metafísica antropológica, na medida que o ser divino se revela a si mesmo diante de nós como um ser em pessoa, e como um ser em Três Pessoas. Desse modo, poderíamos refletir sobre a doutrina revelada da Santíssima Trindade como uma fonte de conhecimento que pode oferecer ao campo da investigação filosófica um novo olhar para a compreensão do sentido profundo do homem em sua plenitude, ou seja, a revelação da Santíssima Trindade como uma realidade que se revela a nós, aos nossos sentidos; assim, tomamos consciência desse algo que se revela:

... A doutrina revelada da Santíssima Trindade deram lugar a formação das noções filosóficas de hipótese e de pessoa. Graças a estas noções, se há adquirido algo essencial não somente para compreender a revelação de Deus em três pessoas, mas também o ser humano e, em uma palavra, o real das coisas (...) Tratamos agora de ajudar-nos da revelação, para o conhecimento do ser finito.[9]

Edith Stein nos indica um caminho metafísico-antropológico,[10] para podermos compreender o ser pessoa humana: basta abrir-se na profundidade sombria da fé que ilumina as trevas do nosso entendimento.
Nossa reflexão final deve ser, justamente, buscar um paralelo entre o pensamento steiniano com uma parte considerável da corrente filosófica contemporânea a, visto que toca na questão da possibilidade e o sentido de uma filosofia cristã, porém, com um horizonte novo permitindo enveredar nesse campo tanto o crente como o incrédulo, para o crente ao aderir o mistério da fé tomou-o como tese, enquanto que para o não-crente ao se posicionar diante da verdade revelada, analisa-a como hipótese. Trata-se de um discurso que possibilita a filosofia descobrir um caminho profundo e vasto em suas investigações acerca da questão do ser.
Na análise fenomenológica o caráter de buscar o sentido originário do ser partindo da relação do ser finito com o eterno, quando o ser finito se percebe como um eu consciente quer o saiba ou não, topa com o ser eterno, então o papel da filosofia é investigar através dos meios da razão natural, até que ponto pode chegar essa busca pelo sentido da realidade.
Por influência do método fenomenológico, em especial o pensamento husserliano, Edith Stein pretende investigar a questão da existência partindo da metafísica do ser, desta maneira é que sua perspectiva de fazer uma abordagem da estrutura ontológica da relação do ser finito com o ser eterno e sua problemática da possibilidade de uma filosofia aberta ao estranho como auxílio a compreensão da realidade ultima da busca do sentido do ser.
Ao desenvolver estas idéias, o pensamento de Edith Stein abre-se para as questões da filosofia contemporânea que se pergunta pelo sentido radical da totalidade. Buscando adquirir a capacidade de refletir sobre os problemas fundamentais apresentados ao homem, as respostas que foram dadas a esses problemas no passado e aquelas que devem ser dadas hoje.

* Doutorado em Filosofia pela Universidade Católica de Santa Cruz, Roma. Professora da Faculdade Católica Rainha do Sertão, Quixadá. Orientadora e Coordenadora do Grupo de Pesquisa Edith Stein.

** Graduada em Filosofia pelo ITEP. Membro integrante do Grupo de Pesquisa Edith Stein.
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[1] Cf. E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 17.
[2] Cf. N. ABBAGNANO, Dicionário de filosofia, 91: “Ato no primeiro sentido significa o que faz ou o que se está fazendo, ação; no segundo significa algo que se realiza o que vai se realizando, do ser que alcançou ou está alcançando sua forma plena e final, em contraposição com o que é simplesmente potencial ou possível. Referente a metafísica de Aristóteles, ato é a própria existência do objeto, dito de outra forma, ato referente ao movimento significa que possuem fim em si mesmo; pensar, ver enquanto ações significa quando possui finalidade fora de si mesmo, caminhar, ação perfeita ou inteligência que tem seu fim em si mesmo. Potência significa o principio ou possibilidade de uma mudança qualquer, para Aristóteles: capacidade de realizar mudança em outra coisa ou em si mesmo, que é potência atual; capacidade de sofrer mudança e causada por outra coisa ou por si mesmo, que é a potência passiva; a capacidade de resistir a qualquer mudança”.
[3] “El conjunto del sistema de nociones fundamentales está divido por una línea radical que, comenzando por el ser, dividido cada nocion en dos aspectos muy diferentes: no se pude decir lo mismo con idênticas sentidos, de Dios y de lãs criaturas. Se apesar de esta se puden emplear lãs mismas expresiones para Dios y lãs criaturas, se debe o que los términos no son unívocos ni tampoco absolutamente equívocos, sinon que analogia, por lo que se poderá dar a la línea de separación el nombre de analogia entis, es debir, la relación entre Dios y la criaturas”. E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 240.
[4] G. REALE – D. ANTISERI, História da filosofia, p.214
[5] “Porque donde queira – en la vida de Agustín, en el yo pienso de Descartes, no ser consciente (Bewusstein) de Husserl donde queira se encuentra un yo soy. Está no es una conclusión como la formula parece indicarlo: cogito, ergo sun, sino el yosoy, es captado inmediatamente: que yo piense, que yo sinta, qui yo quiera o que me dirija intelectualmente de cualquer manera que sea, yo soy y me day cuenta de este ser”. E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 53.
[6] “El ser presente y real del momento no es pensable como existente por si mesmo, del mismo modo que no se puede imaginar el punto fuera de la línea y el momento mismo sin uma duración temporal”. E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 55.
[7] E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno, 63.
[8] E. STEIN, Ser finito y Ser Eterno,136.
[9] “La doctrina revelada de la Santisima Trindad dieram lugar a la formación de lãs nociones filosóficas de hipostasis y de persona. Graças a estas nociones, se há adquirido algo esencial no solo para compreender la revelación de dios en três personas, sino também el ser humano y, en una palavra, lo real de los cosas (...) Tratamos ahora de ayudarnos de la revelación para el conocimiento del ser finito”. E. STEIN, Ser finito y ser Eterno, 371.
[10] Grifo Nosso: metafísico-antropológico no sentido de que nos remete a um ser eterno, infinito pelo qual leva ao novo para um conhecimento existencial fenomenológico do eu que se percebe como alguém que faz uma experiência com o ser eterno, dessa experiência amplia seu conhecimento de si mesmo, do outro, do mundo, e de Deus.

3 comentários:

Douglas disse...

Boa tarde,

Gostaria de saber quais obras temos em português de Edith Stein?
(obras dela mesmo)

Desde já agradeço,

Douglas.

GT Edith Stein disse...

Caro Doulgas boa tarde!
No nosso blog temos um aplicativo com os links das obras traduzidas para o português infelizmente ainda não são muitas, mas com certeza dá para fazer um bom trabalho.

Douglas disse...

Boa tarde!

Venho agradecer a dica dada a meses atrás (desculpem a demora no agradecimento). Fiz um pequeno artigo sobre a empatia em Edith Stein, como parte do curso de bacharelado em filosofia pela Faculdade Vicentina de Curitiba.
Agora estou pensando em fazer minha monografia na área da antropologia filosófica, buscando responder "o que é o homem?" segundo a obra "Ser finito e ser eterno" de Edith Stein.
Uma pena não termos esta obra em português, mas apenas em espanhol.
Também não tenho encontrado muitos comentadores, mas vamos lá.