IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL EDITH STEIN

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A imagem de Deus nas outras criaturas


Carlos Daniel Nascimento

A partir do conceito de forma compreendemos que esta é a fonte do sentido e da existência perfeita das criaturas. Tendo em vista esse conceito podemos perceber sua presença já nas criaturas mais inferiores e até das simples coisas materiais. Nesses graus mais baixos encontramos não uma matéria já existente, porém uma unidade composta de forma e matéria. A plenitude nesse ponto é entendida como espacial. Está sem forma, mas não inteiramente desprovida de forma, pois está passiva de recebê-la posteriormente.Convém a nós sabermos que:

Mas aqui convém prestar atenção ao que temos dito precedentemente sobre os diferentes estados possíveis do mundo criado. A natureza material, objeto de nossa experiência, não é de nenhuma maneira uma pura expressão do plano divino da criação nem um efeito puro da vontade divina; não é tampouco uma formação pura espontânea, nem uma seqüência de forças sem atritos que se ajudam mutuamente. Mas posto que seu estado real enquanto caído remite mais além de si mesmo a um estado íntegro, se concebe sua possibilidade (STEIN, 1996, p. 435).

Para percebermos de forma clara a estrutura das criaturas materiais, precisamos lembrarmo-nos dos conceitos corpo, alma e espírito. A alma é a forma além da matéria que anima um corpo físico constituído de massa, auxiliando-o no decorrer de sua evolução temporal. O corpo vivente é a massa física animada pela alma. O espírito é a essência imaterial, constituído de uma faculdade capaz de refletir e avaliar e que tem liberdade em suas ações.
Se corpo, alma e espírito são interpretados dessa forma, então podemos considerar essas criaturas materiais-corporais, que estão fora dessa evolução da vida, como criaturas não dotadas de corpo vivo, de alma, nem de espírito.

Mas, o corpo inanimado, como toda criatura, possui um sentido e é assim, no sentido amplo do termo, um produto pleno de espírito do qual se serve o espírito do criador para falar ao espírito criado. Expressando este sentido com a ajuda de sua manifestação sensível, sai de si mesmo e adquire um ser espiritual. Assim chegamos à segunda significação do corpo- alma- espírito, segundo a qual esses três termos designam as formas fundamentais do ser real: o ser psíquico designa a mobilidade flutuante que impulsiona à informação; o ser corporal expressa a posse da essência informada: o ser espiritual significa a livre emanação fora de si mesmo, a expressão ou exteriorização da essência (STEIN, 1996, p. 436)


Essa extensão do criador pode ser encontrada também nas coisas inanimadas no decurso de sua existência, e não somente nas criaturas vivas. Assim é vista a criatura tida como inanimada: elas são percebidas como extensão do criador a partir do momento que chegam a ser conforme sua essência tinha sido prevista. Isso é percebido sempre que elas têm a forma essencial expressa exteriormente.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O HOMEM COMO REFLEXO DA PESSOA DIVINA

Carlos Daniel Nascimento












“Aquele cujo nome é ‘eu sou’ é o ser em pessoa” (STEIN, 1996, p.359). Apenas quem é pessoa tem o poder de criar, chamar à existência de acordo com a sua própria vontade.

Segundo a concepção de Edith Stein, o homem é imagem de Deus, e traz em si o reflexo da pessoa divina; quanto a esse reflexo, numa linguagem figurada, podemos compará-lo ao de um espelho.

É interessante que nós percebamos que esta imagem do criador se reflete em todas as coisas criadas, contudo destaca-se mais na pessoa do ser humano. O homem vai se formando à imagem de Deus num processo livre e autônomo. “A imagem dinâmica de Deus no homem vai se clarificando pelas vias do conhecimento de si mesmo e pelo desenvolvimento das possibilidades de maturação do ser.” (GARCIA, 1987, p. 60). Como vimos no primeiro capítulo, quando tratamos da influência de Santo Tomás na filosofia Steiniana, o ser divino não é totalmente diferente do ser das criaturas, nem tampouco idêntico, mas são análogos, ou seja, são parecidos, estando em proporções diferentes.

O homem traz em si uma inclinação à universalidade, uma busca pela sua plenitude, uma vez que traz em si esse reflexo de Deus, participando, portanto da divindade do seu criador.

Stein permite-nos percebermos isso na seguinte citação:

Deus criou o homem e a mulher à própria imagem e semelhança. Só quando as respectivas características masculinas e femininas são plenamente desenvolvidas, atinge-se a máxima semelhança com o divino e, só então, a comum vida terrena se torna poderosamente compenetrada pela vida divina. (STEIN apud GARCIA, 1987, p. 60).

Para evidenciarmos essa imagem do criador na criatura, podemos comparar a alma humana com as formas inferiores. Quando a vida interior particular de uma alma sensível está presente, alcançou-se um primeiro degrau da vida espiritual. Quando o espírito fica informado sobre o que acontece na alma, em sua vida psíquica, este se torna expresso de maneira plena. Portanto, fica para nós evidente que a alma humana não é somente esse vínculo entre o espírito e o corpo, mas deve ser considerada também uma criatura espiritual, não somente um produto do espírito, mas também um espírito informante, pelo fato de tornar pleno o espírito.

Quando uma vida interior particular está presente – por conseguinte, na alma animal – já se tem alcançado um primeiro grau da vida espiritual. E quando pessoalmente é informada a vida psíquica particular, a natureza do espírito está plenamente expressada: por isso, a alma humana não somente é um intermediário entre o espírito e a matéria, mas que é também uma criatura espiritual, não somente um produto do espírito mas também um espírito informante.(STEIN, 1996, p. 440).

Edith pretende demonstrar como a alma enquanto se diz matéria pode ser diferenciada das formas inferiores, e como a alma enquanto espírito pode ser diferenciada das formas superiores.

A informação do corpo e da alma se apresenta primeiro, antes do nascimento e nas primeiras fases da vida – da mesma maneira que no animal –, com sucesso involuntário. Esta informação involuntária não cessa durante a vida inteira, mas sim outra toma lugar a seu lado, lhe usurpa e ganha terreno desde o começo da educação. Enquanto intermediária entre a informação inteiramente involuntária (tal como se apresenta, por exemplo, no crescimento e no desenrolar dos membros e dos órgãos: no que chamamos processos fisiológicos) e a informação voluntária tomada no sentido do livre controle da postura e da mímica, é como se situa o costume do menino, comparável à domesticação dos animais. (STEIN, 1996, p. 441).

Para explicarmos melhor como isso acontece, tomemos o exemplo que Edith dá de uma criança. A criança, por meio do hábito familiar, adquire certos condicionamentos em relação a sua vida. Por exemplo: ela tem horas certas para sua alimentação, para dormir. Ela aprende a andar e a falar, e antes mesmo que sua razão seja despertada, ela é guiada, conduzida. Tudo isso é para dizer que a alma da criança, ainda nos primeiros momentos de sua vida, ainda vive como a alma dos animais, uma vez que não possuem a vontade formada, mas são orientadas por seus pais por meio da educação familiar. Trata-se da utilização das orientações retiradas do pensamento dos adultos que informam as crianças. A conseqüência é que o comportamento das crianças fica semelhante ao das pessoas adultas, que são livres e dotadas de razão.

Trata-se aqui de uma utilização de tendências flexíveis pela vontade informante do adulto e o resultado parece extraordinariamente semelhante ao comportamento de pessoas livres e dotadas de razão, mas na verdade não se produz, todavia nenhuma informação pessoal. (STEIN, 1996, p. 441).

Nessa fase de sua existência, elas possuem de forma mais presente o lado orgânico; por isso são comparadas aos animais, que possuem uma vida irracional, ou seja, sem o uso da razão. Podemos dizer ainda que os costumes que a criança tem, estando ainda no primeiro passo da vida espiritual, pessoal e formada, já pode ser considerada diferente da domesticação dos animais, pois na criança ainda é possível haver transformações.

A educação corporal não se dá pelos cuidados que se tem com o corpo, mas pelo encaminhamento que se dá à vontade. Por exemplo: a alegria; esta pode ser reprimida ou ser expressa artificialmente. Utilizamos esse exemplo para dizer que isto torna possível a voluntariedade do corpo. Estamos falando não só das expressões corporais, mas podemos colocar também as emoções e o domínio exterior do homem.

Podemos, portanto diante dessas precedentes informações, dizer que a formação que acontece no ser - humano não é somente uma formação corporal, mas sobretudo uma formação da alma. Então:

O homem é uma pessoa espiritual, porque está numa livre posição não somente frente a frente de seu corpo, mas também frente a frente de sua alma, e é na medida em que tem poder sobre sua alma como tem poder também sobre seu corpo. (STEIN, 1996, p. 442).

A alma, sendo tomada como totalidade, é vista como a forma essencial do corpo. Esta, enquanto sensitiva, é informada e leva em si sua forma. A essência da alma, propriedade do homem que o faz ser o que é, dá forma a suas forças e a sua vida.

O sentido é a figura final para a qual a sua essência é determinada, e isso se dá por meio de sua determinação essencial. A força pode ser chamada de potência existencial, podemos compreendê-la como aquilo que dá possibilidade à alma de ser o que ela deve ser. A força estende-se na trajetória da vida da alma. Não podemos nos esquecer de que, na alma humana, a quantidade de força também é adquirida no desenrolar da vida, uma vez que ela não está presente no ser - humano desde o seu nascimento. A vida humana é uma contínua consumação de força. Como exemplo, tomemos a luz do sol, uma bela paisagem, ou o sorriso de uma criança; essas ocasiões podem despertar na alma humana uma nova vida.

Alcançarmos com a nossa inteligência a interioridade da alma se faz necessário, se quisermos conhecer melhor o aspecto específico da alma humana.

Os sentidos constituem as portas de entrada para as coisas que caem abaixo dos sentidos. O entendimento penetra como proprietário na profundidade espacial situada mais além do campo sensível e na interioridade das coisas que não caem abaixo dos sentidos; essa interioridade é acessível por meio da exterioridade sensível. A percepção sensível, como o conhecimento intelectual, é uma unidade vivida de uma duração mais ou menos demorada. Desaparece para deixar lugar a novos sentimentos vividos. Porém ao desaparecer não perde, porém, seu conteúdo. Com efeito, o conteúdo sensível que tem sido recebido uma vez se encontra conservado na interioridade durante um tempo muito longo ou muito curto, algumas vezes também para sempre. A primeira classe de acolhida e conservação internas é feita pela memória. (STEIN, 1996, p.441).

A conservação de um fato na memória, durante algum tempo, depende do grau de intimidade a que conseguiu chegar. Por exemplo, é anunciado o assassinato do rei dos sérvios no verão de 1914. Uma primeira pessoa que escuta, continua tranquilamente sua vida e em poucos instantes começa a se preparar para uma viagem de férias. Uma segunda pessoa que escuta já se encontra profundamente transtornada pelo fato de imaginar que uma guerra estará sendo iniciada; essa pessoa fica tensa e fica até adoentada, uma vez que a notícia penetrou o íntimo do seu ser. Esses pensamentos abalam o homem por inteiro, e deixam-se mostrar facilmente na sua exterioridade. Exercem suas atividades nos órgãos corporais como as batidas do coração, a respiração, o sono e o apetite. O coração é o órgão que mais participa no que acontece no íntimo da alma, pois é nesse órgão onde se percebe claramente a conexão entre o corpo e a alma mais do que em qualquer outra parte do corpo. É nessa interioridade onde se pode captar a essência da alma.

A notícia que do exterior penetra na interioridade encontra sempre esta interioridade numa disposição determinada que experimenta a alma com um estado interior. O que entra na alma pode levar uma modificação dessa disposição: a alma se sente ameaçada em seu ser e sua reação se traduz por medo e temor, o que estranha ao mesmo tempo uma modificação do estado interior. Se antes a alma se encontrava em repouso e em paz, o que domina agora é a inquietude e a agitação, assim como uma tomada de posição dirigida para o exterior, contra o que a ameaça. (STEIN, 1996, p. 451-452).

O primeiro acontecimento que se tem é aquele que brota da interioridade psíquica e de uma resposta involuntária. Aquilo que penetra na interioridade é considerado um chamado à pessoa. Esse chamado é dirigido à sua razão, ou seja, um chamado à reflexão pela busca do sentido que se lhe apresenta. Contudo a alma precisa ter uma conduta depois de ter encontrado o sentido no que lhe foi apresentado. Por exemplo: uma pessoa está trabalhando e percebe que está acontecendo um incêndio em sua casa. Esta se vê obrigada a parar o trabalho para apagar o fogo. Se ela continuasse trabalhando, sem nada fazer, estaria portado de uma atitude irracional.

A parte mais interior da alma é considerada como a parte mais espiritual dela; e dessa parte mais interior brota a essência própria da alma.

Afinal, quanto mais concentrada está a vida do homem nesta interioridade, a mais profunda de sua alma, mais poderosa é esta irradiação que emana dele e atrai aos homens em seu seguimento. Mas neste caso, todo comportamento livre espiritual leva também mais fortemente o sinal do modo de ser pessoal que se situa na interioridade mais profunda da alma. Afinal o corpo está mais fortemente impregnado dela e se volve assim espiritualizado. Ali se encontra o verdadeiro centro do ser corporal-psíquico-espiritual. (STEIN, 1996, p.454).

Edith tentou, por meio do que foi colocado, delinear uma imagem do homem. Mais adiante, ao tratarmos das outras criaturas (inferiores), veremos que Edith Stein procurará uma semelhança das criaturas inferiores com o arquétipo divino, principalmente ao que se refere a sua forma, visto que se observarmos suas matérias, essas são opostas, pois a matéria das criaturas inferiores está no espaço-temporal e a de Deus não.

Ascendendo desde as formas inferiores às formas superiores, temos chegado à alma humana. Se a consideramos como forma do corpo, buscaremos no homem inteiro a imagem divina. Por outra parte, ela é a totalidade unitária que, enquanto realidade independente, é posta na existência. Graças à alma o todo é algo pleno de sentido e de vida. (STEIN, 1996, p.461).

domingo, 11 de outubro de 2009

12 DE OUTUBRO NATIVIDADE DE EDITH STEIN !!















12 de outubro de 1891

NASCIA AQUELA QUE SERIA A GRANDE FILOSOFA DO SÉCULO XXI, HOJE É DIA DE RENDERMOS GRAÇAS A DEUS PELA PASSAGEM DE EDITH STEIN SOBRE A TERRA.



segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A imagem de Deus no homem

Carlos Daniel Nascimento

Por meio dessa investigação que estamos fazendo do homem e seguindo o itinerário de Edith Stein, percebemos que o homem é uma criatura limitada. Até que ele chegue à perfeição definitiva, ele não está inteiramente formado, como consta na citação: “Todo ente finito é uma plenitude limitada e informe, mas não está inteiramente informe até sua perfeição definitiva.” (STEIN, 1996, p. 430).

Edith, mesmo partindo da idéia de Santo Tomás, vai mais além e concebe o ser humano da seguinte forma:

O ser humano é um ser que possui um corpo, uma alma e um espírito. Enquanto o homem é, por sua própria essência, espírito, ultrapassa a si mesmo, com sua vida espiritual e entra no mundo que se abre diante dele, sem que perca nada de si. Nele se revela sua essência, como em todo produto real, ao expressar-se de modo espiritual, mesmo em seus atos inconscientes, e sobretudo, ao atuar pessoal e espiritualmente. A alma humana, enquanto espírito, se eleva em sua vida espiritual acima dela mesma. No entanto o espírito humano está condicionado pelo que lhe é superior e pelo que lhe é inferior: está contido num produto material que anima e forma de acordo com sua forma corporal. A pessoa humana carrega e engloba seu corpo e sua alma, mas ela é, ao mesmo tempo, levada envolta por eles. (STEIN apud GARCIA, 1987, p. 59).

Expressamos mais uma vez o pensamento de Edith sobre a constituição da pessoa humana, mas dessa vez deseja-se evidenciar que o homem não é só espiritual, mas o que é espiritual está dependente do que é corpóreo (matéria e forma). Devemos compreender, pois, o que significa matéria e forma. Podemos entender a matéria como um princípio informe, indefinido e indeterminado, presente e comum em todos os seres da natureza, que adquire alguma forma universal advinda de sua natureza. A forma pode ser compreendida como a configuração externa das coisas, o princípio que determina, modela ou delineia a matéria bruta. “Os escolásticos não se ativeram rigorosamente a essa terminologia aristotélica e estenderam o termo forma a qualquer substância, falando de “formas separadas” para indicar as idéias existentes na mente de Deus” (ABBAGNANO, 1999, p. 468-469).

Tendo em vista que todo ente[1] finito é uma plenitude limitada e sem forma (não inteiramente) até que alcance a sua plenitude definitiva, consideremos o homem, que como todo ser criado, aspira por essa plenitude. A matéria, pertencente à realidade finita, constitui juntamente com a finitude aquilo que opõe a criatura ao criador e a faz diferente dele. A forma e a matéria dependem com exatidão uma da outra, ou seja, estão intrinsecamente interligadas, pois uma é necessária à outra, se complementam. A plenitude está no que é comum às duas. A forma tem como característica: o fato de ela ser uma plenitude sem forma, determinante e atuante. A matéria é uma plenitude indeterminada cuja função é adquirir uma forma e uma ação. Nesse processo, quando a matéria se une à sua forma, ela se determina e passa a atuar no sentido da forma. Matéria e forma estão intrinsecamente interligadas pela essência.

As obras humanas supõem tais produtos naturais que recebem um sentido novo por uma ação que vem do exterior. Enquanto que formam uma unidade de sentido e de vida, os produtos criados são imagens da essência divina. Por sua materialidade se distinguem dela. (STEIN, 1996, p. 431).

O caminho proposto por Edith Stein é uma tentativa de compreender o ser finito através dessa relação com o ser eterno. Por meio desse caminho, o ser humano amplia seus horizontes na busca de compreender o sentido do ser, que se dá por meio desse desvelamento do mistério, ou seja, aquilo que está obscuro à nossa razão. Entretanto, seria impossível se pensar um caminho onde se partisse do ser divino para compreender a criatura. O pensamento Steiniano nos apresenta uma hermenêutica do arquétipo da trindade como possibilidade de uma nova luz sobre o conhecimento do ser. Partindo dessa tentativa, pretende-se compreender a multiplicidade das pessoas divinas.

Igualmente temos chegado ao limite das aclarações que se pode adquirir sobre o criador partindo das criaturas, para elevar-nos até as revelações que Deus nos tem feito de si mesmo. Sem tomar este caminho, seria impossível, partindo do ser divino, compreender o ser criado. Trata-se então de encontrar na divindade trinitária o arquétipo do que temos descrito no campo do criado como sentido e plenitude de vida. (STEIN, 1996, p.431-432).

Nessa citação feita, percebe-se o deixar transparecer de Edith no que se diz respeito ao seu método fenomenológico, que se faz presente em toda a sua obra. Quando ela busca as revelações que Deus faz de si mesmo, o método fenomenológico é facilmente identificado, pois a fenomenologia nos permite voltarmos às coisas no que elas são em si, deixando de lado todo e qualquer preconceito.

O ser divino é espírito e transparece a si mesmo, e produz, desde toda eternidade, a imagem do seu ser. Tendo em vista que o Espírito Santo é dom de si, ele contém em si todos os dons do ser eterno que faz a criatura. A sabedoria divina possui tudo o que é criado no logos (razão) enquanto sabedoria personificada. Ela é, pois, o arquétipo, e possui todas as determinações da essência das criaturas, ou seja, tudo o que devem ser. A sabedoria divina, em seu amor é quem suscita a existência e dá vida às criaturas, por isso:

Desde a eternidade a potência existencial ou a força de desenvolver sua essência, o Espírito Santo, enquanto a pessoa da vida e do amor é o arquétipo de toda vida e de todo ato criado e a irradiação espiritual da essência particular, que é próprio também dos seres materiais. (STEIN, 1996, p. 434).


[1] Ente: cada um dos seres múltiplos e concretos da realidade (o homem, a natureza) que não se confundem com o ser em si, o Ser ou a realidade absoluta.