IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL EDITH STEIN

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O HOMEM COMO REFLEXO DA PESSOA DIVINA

Carlos Daniel Nascimento












“Aquele cujo nome é ‘eu sou’ é o ser em pessoa” (STEIN, 1996, p.359). Apenas quem é pessoa tem o poder de criar, chamar à existência de acordo com a sua própria vontade.

Segundo a concepção de Edith Stein, o homem é imagem de Deus, e traz em si o reflexo da pessoa divina; quanto a esse reflexo, numa linguagem figurada, podemos compará-lo ao de um espelho.

É interessante que nós percebamos que esta imagem do criador se reflete em todas as coisas criadas, contudo destaca-se mais na pessoa do ser humano. O homem vai se formando à imagem de Deus num processo livre e autônomo. “A imagem dinâmica de Deus no homem vai se clarificando pelas vias do conhecimento de si mesmo e pelo desenvolvimento das possibilidades de maturação do ser.” (GARCIA, 1987, p. 60). Como vimos no primeiro capítulo, quando tratamos da influência de Santo Tomás na filosofia Steiniana, o ser divino não é totalmente diferente do ser das criaturas, nem tampouco idêntico, mas são análogos, ou seja, são parecidos, estando em proporções diferentes.

O homem traz em si uma inclinação à universalidade, uma busca pela sua plenitude, uma vez que traz em si esse reflexo de Deus, participando, portanto da divindade do seu criador.

Stein permite-nos percebermos isso na seguinte citação:

Deus criou o homem e a mulher à própria imagem e semelhança. Só quando as respectivas características masculinas e femininas são plenamente desenvolvidas, atinge-se a máxima semelhança com o divino e, só então, a comum vida terrena se torna poderosamente compenetrada pela vida divina. (STEIN apud GARCIA, 1987, p. 60).

Para evidenciarmos essa imagem do criador na criatura, podemos comparar a alma humana com as formas inferiores. Quando a vida interior particular de uma alma sensível está presente, alcançou-se um primeiro degrau da vida espiritual. Quando o espírito fica informado sobre o que acontece na alma, em sua vida psíquica, este se torna expresso de maneira plena. Portanto, fica para nós evidente que a alma humana não é somente esse vínculo entre o espírito e o corpo, mas deve ser considerada também uma criatura espiritual, não somente um produto do espírito, mas também um espírito informante, pelo fato de tornar pleno o espírito.

Quando uma vida interior particular está presente – por conseguinte, na alma animal – já se tem alcançado um primeiro grau da vida espiritual. E quando pessoalmente é informada a vida psíquica particular, a natureza do espírito está plenamente expressada: por isso, a alma humana não somente é um intermediário entre o espírito e a matéria, mas que é também uma criatura espiritual, não somente um produto do espírito mas também um espírito informante.(STEIN, 1996, p. 440).

Edith pretende demonstrar como a alma enquanto se diz matéria pode ser diferenciada das formas inferiores, e como a alma enquanto espírito pode ser diferenciada das formas superiores.

A informação do corpo e da alma se apresenta primeiro, antes do nascimento e nas primeiras fases da vida – da mesma maneira que no animal –, com sucesso involuntário. Esta informação involuntária não cessa durante a vida inteira, mas sim outra toma lugar a seu lado, lhe usurpa e ganha terreno desde o começo da educação. Enquanto intermediária entre a informação inteiramente involuntária (tal como se apresenta, por exemplo, no crescimento e no desenrolar dos membros e dos órgãos: no que chamamos processos fisiológicos) e a informação voluntária tomada no sentido do livre controle da postura e da mímica, é como se situa o costume do menino, comparável à domesticação dos animais. (STEIN, 1996, p. 441).

Para explicarmos melhor como isso acontece, tomemos o exemplo que Edith dá de uma criança. A criança, por meio do hábito familiar, adquire certos condicionamentos em relação a sua vida. Por exemplo: ela tem horas certas para sua alimentação, para dormir. Ela aprende a andar e a falar, e antes mesmo que sua razão seja despertada, ela é guiada, conduzida. Tudo isso é para dizer que a alma da criança, ainda nos primeiros momentos de sua vida, ainda vive como a alma dos animais, uma vez que não possuem a vontade formada, mas são orientadas por seus pais por meio da educação familiar. Trata-se da utilização das orientações retiradas do pensamento dos adultos que informam as crianças. A conseqüência é que o comportamento das crianças fica semelhante ao das pessoas adultas, que são livres e dotadas de razão.

Trata-se aqui de uma utilização de tendências flexíveis pela vontade informante do adulto e o resultado parece extraordinariamente semelhante ao comportamento de pessoas livres e dotadas de razão, mas na verdade não se produz, todavia nenhuma informação pessoal. (STEIN, 1996, p. 441).

Nessa fase de sua existência, elas possuem de forma mais presente o lado orgânico; por isso são comparadas aos animais, que possuem uma vida irracional, ou seja, sem o uso da razão. Podemos dizer ainda que os costumes que a criança tem, estando ainda no primeiro passo da vida espiritual, pessoal e formada, já pode ser considerada diferente da domesticação dos animais, pois na criança ainda é possível haver transformações.

A educação corporal não se dá pelos cuidados que se tem com o corpo, mas pelo encaminhamento que se dá à vontade. Por exemplo: a alegria; esta pode ser reprimida ou ser expressa artificialmente. Utilizamos esse exemplo para dizer que isto torna possível a voluntariedade do corpo. Estamos falando não só das expressões corporais, mas podemos colocar também as emoções e o domínio exterior do homem.

Podemos, portanto diante dessas precedentes informações, dizer que a formação que acontece no ser - humano não é somente uma formação corporal, mas sobretudo uma formação da alma. Então:

O homem é uma pessoa espiritual, porque está numa livre posição não somente frente a frente de seu corpo, mas também frente a frente de sua alma, e é na medida em que tem poder sobre sua alma como tem poder também sobre seu corpo. (STEIN, 1996, p. 442).

A alma, sendo tomada como totalidade, é vista como a forma essencial do corpo. Esta, enquanto sensitiva, é informada e leva em si sua forma. A essência da alma, propriedade do homem que o faz ser o que é, dá forma a suas forças e a sua vida.

O sentido é a figura final para a qual a sua essência é determinada, e isso se dá por meio de sua determinação essencial. A força pode ser chamada de potência existencial, podemos compreendê-la como aquilo que dá possibilidade à alma de ser o que ela deve ser. A força estende-se na trajetória da vida da alma. Não podemos nos esquecer de que, na alma humana, a quantidade de força também é adquirida no desenrolar da vida, uma vez que ela não está presente no ser - humano desde o seu nascimento. A vida humana é uma contínua consumação de força. Como exemplo, tomemos a luz do sol, uma bela paisagem, ou o sorriso de uma criança; essas ocasiões podem despertar na alma humana uma nova vida.

Alcançarmos com a nossa inteligência a interioridade da alma se faz necessário, se quisermos conhecer melhor o aspecto específico da alma humana.

Os sentidos constituem as portas de entrada para as coisas que caem abaixo dos sentidos. O entendimento penetra como proprietário na profundidade espacial situada mais além do campo sensível e na interioridade das coisas que não caem abaixo dos sentidos; essa interioridade é acessível por meio da exterioridade sensível. A percepção sensível, como o conhecimento intelectual, é uma unidade vivida de uma duração mais ou menos demorada. Desaparece para deixar lugar a novos sentimentos vividos. Porém ao desaparecer não perde, porém, seu conteúdo. Com efeito, o conteúdo sensível que tem sido recebido uma vez se encontra conservado na interioridade durante um tempo muito longo ou muito curto, algumas vezes também para sempre. A primeira classe de acolhida e conservação internas é feita pela memória. (STEIN, 1996, p.441).

A conservação de um fato na memória, durante algum tempo, depende do grau de intimidade a que conseguiu chegar. Por exemplo, é anunciado o assassinato do rei dos sérvios no verão de 1914. Uma primeira pessoa que escuta, continua tranquilamente sua vida e em poucos instantes começa a se preparar para uma viagem de férias. Uma segunda pessoa que escuta já se encontra profundamente transtornada pelo fato de imaginar que uma guerra estará sendo iniciada; essa pessoa fica tensa e fica até adoentada, uma vez que a notícia penetrou o íntimo do seu ser. Esses pensamentos abalam o homem por inteiro, e deixam-se mostrar facilmente na sua exterioridade. Exercem suas atividades nos órgãos corporais como as batidas do coração, a respiração, o sono e o apetite. O coração é o órgão que mais participa no que acontece no íntimo da alma, pois é nesse órgão onde se percebe claramente a conexão entre o corpo e a alma mais do que em qualquer outra parte do corpo. É nessa interioridade onde se pode captar a essência da alma.

A notícia que do exterior penetra na interioridade encontra sempre esta interioridade numa disposição determinada que experimenta a alma com um estado interior. O que entra na alma pode levar uma modificação dessa disposição: a alma se sente ameaçada em seu ser e sua reação se traduz por medo e temor, o que estranha ao mesmo tempo uma modificação do estado interior. Se antes a alma se encontrava em repouso e em paz, o que domina agora é a inquietude e a agitação, assim como uma tomada de posição dirigida para o exterior, contra o que a ameaça. (STEIN, 1996, p. 451-452).

O primeiro acontecimento que se tem é aquele que brota da interioridade psíquica e de uma resposta involuntária. Aquilo que penetra na interioridade é considerado um chamado à pessoa. Esse chamado é dirigido à sua razão, ou seja, um chamado à reflexão pela busca do sentido que se lhe apresenta. Contudo a alma precisa ter uma conduta depois de ter encontrado o sentido no que lhe foi apresentado. Por exemplo: uma pessoa está trabalhando e percebe que está acontecendo um incêndio em sua casa. Esta se vê obrigada a parar o trabalho para apagar o fogo. Se ela continuasse trabalhando, sem nada fazer, estaria portado de uma atitude irracional.

A parte mais interior da alma é considerada como a parte mais espiritual dela; e dessa parte mais interior brota a essência própria da alma.

Afinal, quanto mais concentrada está a vida do homem nesta interioridade, a mais profunda de sua alma, mais poderosa é esta irradiação que emana dele e atrai aos homens em seu seguimento. Mas neste caso, todo comportamento livre espiritual leva também mais fortemente o sinal do modo de ser pessoal que se situa na interioridade mais profunda da alma. Afinal o corpo está mais fortemente impregnado dela e se volve assim espiritualizado. Ali se encontra o verdadeiro centro do ser corporal-psíquico-espiritual. (STEIN, 1996, p.454).

Edith tentou, por meio do que foi colocado, delinear uma imagem do homem. Mais adiante, ao tratarmos das outras criaturas (inferiores), veremos que Edith Stein procurará uma semelhança das criaturas inferiores com o arquétipo divino, principalmente ao que se refere a sua forma, visto que se observarmos suas matérias, essas são opostas, pois a matéria das criaturas inferiores está no espaço-temporal e a de Deus não.

Ascendendo desde as formas inferiores às formas superiores, temos chegado à alma humana. Se a consideramos como forma do corpo, buscaremos no homem inteiro a imagem divina. Por outra parte, ela é a totalidade unitária que, enquanto realidade independente, é posta na existência. Graças à alma o todo é algo pleno de sentido e de vida. (STEIN, 1996, p.461).

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