IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL EDITH STEIN

sábado, 2 de janeiro de 2010

EPIFANIA (Edith Stein)





“Os Magos tem também para nós um sig­nificado especial. Mesmo que já pertençamos à Igreja visível, percebemos muitas vezes a necessidade in­terior de superar os limites das concepções e costumes herdados. Conhecíamos a Deus, porém sentíamos que Ele queria ser bus­cado e encontrado de uma maneira nova. Por isso buscamos uma estrela que nos indique um caminho reto. Esta estrela manifestou-se na graça de nossa vocação. Nós a seguimos e no final do caminho encontramos o Menino divino. Ele estendeu suas mãos para receber nossos dons e esperava de nós o ouro de um coração libertado dos bens terrenos, a mirra da renúncia à felicidade deste mundo, para receber em troca a par­te da vida e dos sofrimentos de Cristo, e finalmente, o incenso de uma vontade com altas aspirações, que se entrega totalmente, para submeter-se à vontade divina. Em troca destes dons, o Menino divino entrega-nos sua própria vida.

Este admirável intercâmbio não foi sem dúvida o único. Ele plenifica nossa vida inteira. Depois da hora solene da nossa entrega nupcial, seguiu-se o afazer cotidiano da vida religiosa. Tivemos que «voltar ao nosso país de origem», mas «por outro caminho», conduzidos pela luz nova que havia iluminado aquela hora solene. Esta luz nova exige também que busquemos com novos olhos. «Deus se deixa buscar», disse Santo Agustinho, «para deixar-se encontrar. E Ele se deixa encontrar para que possamos buscá-lo novamente». Depois de cada hora marcada pela graça, temos a impressão de que começamos a compreender nossa vocação. Por isso, o fato de renovar cada ano nossos votos responde a uma profunda necessidade interior e tem especial importância que o façamos no dia da festa dos três Reis Magos, cuja peregri­nação, e adoração ao Menino é um modelo para nossa própria vida. O Menino divino responde a cada uma das renovações de nossos votos, feitas com sinceridade de coração, com uma renovada aceitação de nossa vida numa íntima comuni­cação interior. Esta aceitação representa, por sua parte, uma nova e silenciosa ação da graça em nossa alma. Quem sabe expressa-se inclusive, numa «epifania», numa revelação da obra de Deus em nossa conduta exterior e em nossas ações, que até possam ser percebidas à nossa volta. Mas pode ser também que produza frutos que permaneçam ocultos aos outros, dos quais brotam fontes misteriosas de vida.

Vivemos hoje numa época que necessita urgente­mente de uma renovação a partir das fontes escon­didas das almas intimamente unidas a Deus. Há muita gente que tem suas últimas espe­ranças postas nestas fontes da salvação. Esta é uma admoestação muito séria: de cada um de nós se exige uma entrega total ao Senhor que nos chamou, para que possa ser renovada a face da terra. Numa total confiança devemos abandonar nossa alma às inspirações do Espírito Santo. Não é necessário que experimentemos a «epifania» de nossa vida, e sim que temos que viver na certeza da fé de que, o que o Espírito de Deus faz de forma es­condida em nós, produz seus frutos no reino celestial. Nós os veremos na eter­nidade.

Desta maneira queremos apresentar ao Senhor nossas oferendas e as depositamos nas mãos de sua Mãe. Este primeiro sábado foi consagrado especialmente ao seu nome e nada pode significar para seu coração uma alegria maior que a entrega cada vez mais profunda de nosso coração ao co­ração de Deus. Além disso, ela intercederá ante o Menino no presépio, para que tenhamos santos sa­cerdotes e para que suas obras sejam plenas de bênçãos. Esta é a petição que este sábado sacer­dotal exige de nós e que a Mãe de Deus colocou em nosso coração como elemento essencial de nossa vocação carmelitana.”

(Trecho de Edith Stein, Epifania. Escrito provavelmente a 6 de janeiro de 1940. Trad. Fr. Alzinir).

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