IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL EDITH STEIN

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A FENOMENOLOGIA DE HUSSEL E A FILOSOFIA DE TOMÁS DE AQUINO NA CONCEPÇÃO FILOSÓFICA DE EDITH STEIN

KÁTIA GARDÊNIA DA SILVA COELHO

Filosofia como ciência

rigorosa

Nasceu na cidade de Prosnitz, Moravia em 1859, o criador do movimento fenomenológico, Edmund Husserl, formou-se primeiramente na área Matemática, Física e Astronomia, na universidade deLeipzig. A partir de 1884, Husserl passou a conviver com Franz Brentano[1] e freqüentou seus cursos, quando começa a surgir seu interesse pela filosofia dedicando-se a fundamentação científica da filosofia.

Husserl estava preocupado com a crise da sua época[2] pretendendo

encontrar uma solução. “Chegou a conceber a filosofia como ‘ciência’, isto é, fazer com que a filosofia continuasse a explorar a metafísica, porém com um rigor metodológico”.[3] Tendo procurado fundamentar a filosofia

como ciência rigorosa, pois a verdade e a ciência são valores que devem sustentar as ciências vivenciais e dar-lhes a segurança de um rigor científico. Nesse sentido, Husserl concorda com Descartes a convicção de que a filosofia, como ciência rigorosa, iluminada conforme a experiência das ciências exatas, poderia oferecer à humanidade uma cultura que servisse de luz no seu caminhar vivencial, e com isso tenta estabelecer uma base sólida de racionalidade, tal como exige uma fundamentação científica, mas para isso é preciso partir do conjunto da realidade que se apresenta à consciência orientando-se para as próprias coisas, ou seja, o “retorno às coisas mesmas”, deixando de lado os preconceitos que saem necessariamente alheios as próprias coisas.

A fenomenologia entendida por Hussel: a ciência do que aparece a consciência, como ciência dos sentidos das coisas e do mundo, dos fundamentos originais. “Pretende ser ciências das essências e não dos fatos. É ciência de experiência que descreve os universais que a consciência intui quando se lhe apresentam os fenômenos”.[4] Por isso a fenomenologia busca ser “Prima Philosophia” concordando com o pensamento cartesiano.

O caminho da atividade filosófica é a reflexão, partindo do acesso a consciência para submetê-lo a análise. Usando a análise intencional como seu sentido de investigação, portanto, a intencionalidade [5] da consciência que é preciso analisar, resultando na dupla preocupação da fenomenologia em oferecer uma fundamentação científica rigorosa à filosofia e ao mesmo tempo, praticar uma análise psicológica, pois busca responder a questão epistemológica do fundamento absoluto da lógica e da ciência. “Para compreendermos o fenômeno puro na sua origem, Hussel estabelece a epoché, isto é, a suspensão de todo juízo que temos de algo, para poder descrever como as coisas aparecem na consciência”.[6] A epoché é a atividade de colocar “entre parêntese”, a suspensão da afirmação da realidade que está implícita em todas as atividades e ciências naturais, ou seja, tenta ficar com a essência, purificando a consciência de tudo que fora pré-concebido para alcançar a essência do fenômeno.

A filosofia para Hussel, enquanto indagação fenomenológica, apresenta as seguintes características:[7] é uma ciência teorética (contemplativa) e rigorosa, isto é, “fundamentada” no sentido do ser “dotado de fundamento absoluto”; intuitiva porque tenta apreender essências que se apresentam à razão de uma forma análoga àquela em que as coisas se apresentam a percepção sensível; não objetiva, e por isso, completamente diferente das outras ciências particulares que são ciências dos fatos ou das realidades (físicas ou psíquicas), enquanto que ela prescinde de qualquer fato ou realidade e se preocupa apenas com as essências; é das origens e dos primeiros princípios, dado que a consciência contém o sentido de todos os possíveis modos como às coisas podem ser dados ou constituídos e da subjetividade por que a análise da consciência se dirige para o eu como sujeito ou pólo unificador de todas as intencionalidades constitutivas e, finalmente, impessoal porque os seus colaboradores não têm necessidade de prudência, mas de dados teoréticos.

Deste modo, o ideal husserliano exprime-se pela determinação em dar consistência científica à filosofia, fazendo da fenomenologia uma filosofia fundamentada no dinamismo intencional de uma consciência sempre aberta. A filosofia é sempre ciência suprema e a mais rigorosa, “na medida em que ela é uma ciência que se legitima a si mesmo e, enquanto tal é ciência universal”.[8] Se a filosofia enquanto fenomenologia compreendida por Husserl, assim, isso não significa logo que todo o movimento fenomenológico a compreendia dessa mesma maneira. Podemos dizer que um ou outro aspecto foi aceito, embora que os fenomenólogos aceitem o conceito da razão como auto-revelação evidente do ser, essa auto-revelação é compreendida como explicitação de todos os modos possíveis das manifestações do ser. Este conceito faz parte da ala dos fenomenólogos realista.

Edith Stein, agora, segue Husserl quanto à idéia da filosofia como ciência rigorosa: a ciência, em cada um dos seus estados, é o êxito de tudo aquilo que o espírito humano fez para pesquisar a verdade. Nisso ela distingue a ciência como saber e como idéia. Como saber ela é limitada, está propicia a erros, e desvios porque encontra-se sujeita ao espírito humano no seu exercício. Enquanto isso a ciência como idéia é perfeita e se expressa sob a forma de proposições verdadeiras para fazer uma investigação do objeto pretendendo explorá-lo em sua totalidade, entretanto, sabemos que nossa experiência histórica é sempre uma tentativa de aproximação dessa totalidade, no sentido de que a ciência como idéia não se esgota a investigação acerca do objeto.

Nesse sentido Stein reflete sobre o que é filosofia a partir da fenomenologia de Husserl, tendo como objetivo voltar-se para a questão de uma fundamentação filosófica intelectual da fé cristã. Nesse momento, ela já começa a dar seus primeiros passos em sua autonomia filosófica, iniciando o amplo projeto de uma investigação sobre os problemas enfrentados para o desenvolvimento filosófico tanto do pensamento grego, como também do medieval e contemporâneo. Isto significa para ela a pretensão de responder a questões sobre o sentido do ser que se apresentam na filosofia contemporânea e ao mesmo tempo ela intenta restaurar o conhecimento antigo da razão numa perspectiva nova, uma filosofia autônoma no sentido em que toma as novas fontes da verdade revelada, com o intento de ampliar seus horizontes para adquirir a compreensão do mundo mais universal e mais fundamentado possível. É intuiçãoprópria de Edith Stein relacionar o pensamento escolástico tomasiano com a fenomenologia de Husserl, primeiramente, falaremos sobre sua perspectiva em dar uma fundamentação da filosofia como ciência, entretanto ela nunca abandonou o método fenomenológico, embora perceba em Tomás de Aquino uma clareza em seu sistema, que para Edith Stein, nos serve, no entanto para elaborarmos novas perguntas a contemporaneidade. Edith Stein em sua busca incansável da verdade última, qualquer fonte pode ser válida, não descarta nem a fé, nem a mística como possibilidade de fontes da verdade que se apresentam aos filósofos. A filosofia tem essa possibilidade de clareza de pensamento matemático procurando o logos no mundo, sua razão de ser. A verdadeira tarefa da filosofia é de compreender o mundo: sensível, espiritual, ou seja, não é um sistema fechado, mas pelo contrário, é toda abrangente. A “philosophia perene”, compreendida sob o aspecto do espírito crítico, atribuído ao filósofo do qual possui uma necessidade interior de correr em busca do logos ou a razão, nesse mundo, a filosofia que brota do anseio do sentido radical e universal do homem de descobrir sua verdade plena. A filosofia é ciência rigorosa porque “investiga e esclarece os fundamentos de todas as ciências, examinando o que elas recebem do pensamento pré-científico, como dados conhecidos e naturais”. [9]

Embora não podemos esquecer que para aceitar uma fonte como conhecimento de uma verdade é necessário ter critério de credibilidade, rigor intelectual como prova pela verdade. Se, por exemplo, se estou procurando um anel, a cura da Aids, ou então sentido último da vida eu tenho-os em minha consciência. No entanto, tudo depende do método com que buscamos, dessa maneira fica-se aberto ao que cada um vai descobrindo sem algo padronizado ou fechado.

Poderíamos ver ainda a filosofia, para Karl Jaspers,[10] é autônoma, mas não se separa da ciência, no entanto que a filosofia busca compreender o sentido da vida, do mundo, a totalidade, enquanto a ciência é conhecimento de objetos, dá orientação no mundo, visa aspectos particulares, faz uma leitura superficial. Mas a ciência só não basta para responder a realidade segundo Jaspers,[11] o conhecimento científico não está em condições de dar nenhuma orientação para a vida. Não estabelece valores válidos, (...) ele remete a outro fundamento da nossa vida. -“A questão para Jaspers, é que a ciência não pode dar nenhuma resposta à pergunta relativa a seu verdadeiro sentido: o fato de que a ciência existe basicamente em impulsos que não podem ser sequer eles, demonstrados cientificamente como verdadeiros e como devendo existir”.

A questão para Jaspers, é que a ciência não responde aos problemas próprios do ser humano que busca o sentido, o conhecimento científico e o conhecimento do objeto particular no mundo, não está voltado para o conhecimento da totalidade do objeto. Assim, a filosofia contribui com suas pretensões específicas de solucionar, de compreender o que é a totalidade do real, o sentido universal.

Também nessa discussão acerca da relação entre filosofia e ciência, o filósofo Alfred North Whitehead[12] parte da necessidade da filosofia como ciência e auxílio para a ciência: “a função da filosofia é trabalhar pela concordância das idéias que aparecem ilustradas pelos fatos concretos do mundo real ...”.[13] Ao mesmo tempo a filosofia torna-se “método científico” tendo como tarefa a verificação das verdades apresentadas pela ciência.

Neste aspecto, Edith Stein não está fora do contexto filosófico contemporâneo, percebe-se a harmonia, a contribuição, o auxílio dessa relação entre filosofia e ciência, seus métodos autônomos e específicos de cada uma, ou seja, o pensamento steiniano está de acordo com as reflexões tanto de Jarpers e Horth sob o caráter do auxílio da filosofia para a ciência. A ciência para a filosofia é um conhecimento certo verdadeiro, real conhecimento dos detalhes possui elaboração intelectual lógica, enquanto que o papel da filosofia está em verificar e delimitar o campo de cada ciência indicando os limites teóricos, o que é possível fazer, o que é

justo, pois a filosofia procura uma visão mais profunda, mais universal, observa todas as premissas da lógica, os princípios fundamentais da ciência sempre com o olhar voltado ao descobrimento do logos, o sentido do mundo, tendo por meta buscar a verdade, embora não seja uma missão cumprida, acabada, mas ela sempre apenas se aproxima da verdade plena. O filósofo não é dono da verdade plena, ele busca também ver na filosofia uma busca para uma compreensão do mundo como pretensão de uma atitude prática no mundo na tentativa de explicar a estrutura da subjetividade enquanto instância última de fundamentação.

2. Razão natural e supranatural, fé e saber

A filosofia brota da pretensão de compreender a totalidade do real, do desejo de abarcar a verdade em sua plenitude como meta ao ser humano através da razão como tal. Começaremos nossa discussão acerca da problemática da filosofia enquanto abertura para adesão da fé na medida em que essa se apresenta como um dado de verdade. Embora, não iremos nos aprofundar aqui sobre esse assunto porque dele trataremos mais tarde, debrucemos-nos agora apenas sobre a questão da fenomenologia de Edmund Hussel e a filosofia de Tomás de Aquino percorrendo o trajeto da relação entre razão e fé segundo o pensamento steiniano.

Ousamos dizer que a força motora no pensamento de Edith Stein sobre a relação da razão natural com a supranatural, parte do caráter “hermenêutico” [14] em verificar o quanto a fenomenologia de Hussel e a metafísica de Tomás se encontram ou se confrontam.

Deste modo, Edith Stein é uma defensora incansável da análise da filosofia como centro reflexivo da busca pela verdade total. Porém, ela percebe que tanto Hussel como Tomás concordam com o caráter da razão ser um processo infinito em direção ao caminho para alcançar a verdade enquanto tal.

Para Hussel, a razão está para além do que seja a distância entre natural e supranatural, mas da razão como tal, como ele mesmo diz nessas palavras:

A essência da razão como tal, a ratio da ratio, que ultrapassa todas diferentes espécies de seres cognoscentes o senhor procede como se não houvesse nenhum limite para a nossa razão. De certo, a tarefa da razão é infinita, o conhecimento é um processo infinito, mas está voltado para a sua meta, a saber, a verdade plena que, enquanto idéia regulativa, prescreve a direção do caminho.[15]

Assim, segundo Hussel, a razão seria o único meio para se alcançar a meta, ainda que esse seja o percurso da razão natural de um seguimento infinito, ela não deixa de assumir uma postura especulativa do ser humano revelando suas características sujeito a quedas e erros ao confrontar-se com suas limitações racionais. Desta forma, significa que obtém seu objetivo apenas em aproximar-se da verdade total.

Ao menos de início, Edith Stein nisso concorda com Hussel sobre o aspecto da razão natural, embora encontremos divergências sobre a questão de se admitir que a razão natural seja o único acesso de conhecimento para alcançar a verdade plena; para eles (Tomás e Edith), o conhecimento natural é um caminho, pois a fé revela-se como um segundo acesso de conhecimento para a verdade como tal. “A verdade plena é, e existe um conhecimento que a apreende inteiramente que não é um processo infinito, mas uma abundancia infinita calma, esse é o conhecimento divino”. [16]

Para ambos, o conhecimento divino seria aquele que integra e plenifica o conhecimento natural, nesse ponto Husserl admite a fé só enquanto fonte para uma experiência religiosa, nunca sob uma visão especifica da investigação filosófica.

Desta maneira, o cunho hermenêutico do pensamento steiniano está na possibilidade de aceitar a fé como um dos caminhos para a verdade que de outro modo estaria velada diante de nós. E, em segundo lugar, a fé se mostra com um grau de conhecimento seguro que iluminaria nossa razão para evitar o menor erro na busca da verdade plena; para o homem em “statu de viae”, não existe nenhum conhecimento com semelhante certeza como o caminho da fé, portanto, ela adquire um duplo significado para a filosofia.

A filosofia clama pela verdade em seu sentido mais abrangente possível. Se a fé abre a razão a verdades que são inacessíveis pela razão por si só, a filosofia ao aderir o direito à fé, não se contradiz, pelo contrário ampliaria seu horizonte reflexivo que o espírito humano pode expressar; a razão supranatural auxilia a razão natural para uma compreensão “racional do mundo, ou seja, uma metafísica – e nisso reside, secreta ou abertamente a intenção de toda filosofia”. [17]

Com isso a razão ao abrir-se a verdade revelada não perderia seu caráter autônomo do qual continuaria seguindo seu percurso em direção à verdade, na tentativa de saber compreender o problema do sentido universal, já que a filosofia tenta responder as questões que o ser humano busca abarcar: o logos de tudo, o problema do fundamento último com o intuito de realizar uma atitude prática no mundo. Pois, o ser humano tem essa necessidade interior para um agir na história ela é fruto dessa relação entre verdade natural e supranatural que brota do espírito daquele que busca a verdade, tendo a interioridade como campo da presença do absoluto dentro do espírito do homem do qual descobre força produzida de fora.

O que gostaríamos de evidenciar neste tópico é justamente a filosofia própria de Edith Stein, sua capacidade de elaborar uma filosofia que possa ser (apta) à abertura ao estranho, ao desconhecido, ou seja, uma filosofia que clama pela verdade total embora não se encontre conclusivo, como dissemos, apenas se aproxima da verdade. Na realidade, o pensamento filosófico de Edith Stein revela o ponto chave do confronto dos dois pensadores, Tomás e Hussel, que mostram a abertura da razão como possibilidade ao infinito. Outro ponto comum é o caráter de certeza e a questão da intuição.[18] A certeza que é dom da graça,[19] mas não deixa de ser certeza para todo aquele que crê na verdade da fé, no sentido da compreensão da mais completa das verdades. E a intuição fenomenológica não é somente uma visão da essência, mas compreende um vir à tona o real.

Edith Stein vê a necessidade para uma fundamentação filosófica intelectual da fé, aceita a fé como fonte de conhecimento da verdade. Com isso desemboca numa possibilidade de uma filosofia cristã, enquanto formação histórica, que passa a depender da fé e da teologia na medida em que toma a sério a mensagem que se constitui um campo de investigação filosófica. É cristã quando investiga aquilo que diz o cristianismo representando alguma atitude mais compreensível do mundo, do ser humano que se indaga pelo sentido de sua inserção no universo, de suas relações com seu semelhante, sobre o sentido ou não da dor, da angústia, da morte, resumindo numa palavra, ele se pergunta pela totalidade da realidade em seu sentido pleno.[20]

3. Filosofia crítica e dogmática

Para os filósofos modernos e Hussel, existe uma racionalidade objetiva, crítica, uma auto-revelação evidente e progressiva da consciência na qual todas as outras evidências encontram seu fundamento sob uma única via de acesso ao conhecimento verdadeiro através da razão como tal. Edith Stein concorda com o método husserliano que procede sob o aspecto do rigor ao encontro de uma maior clareza e distinção metodológica para o conhecimento da verdade última, embora discorde aqui que este seja se o único caminho. Ela concebe como ideal de um caminho seguro para a verdade plena a razão supranatural, sendo um caminho que iluminaria a razão, e no qual evitaria a razão a cometer erros com menor freqüência.

A fé para Hussel, no campo filosófico acabaria dogmatizando a liberdade do pensar filosófico que, todavia, Edith Stein considera bem-vindo ao corpo especulativo da filosofia, já que a fé nos conduziria à verdade com a pretensão de nos dar uma compreensão mais vasta sobre o logos da totalidade do real, com o interesse de nos apresentar a análise de todos os saberes num só corpo e examiná-lo.

Com isso, o objetivo do itinerário hermenêutico steiniano revela o caráter crítico e rigoroso de Tomás em suas investigações ao reunir não só o que era da doutrina da Igreja, da Bíblia, dos Padres da Igreja como também o ensinamento das filosofias mais antigas e algumas recentes sempre empregando os princípios formais e lógicos a visão dos fatos, a buscar pela verdade de fé mostrando diferentes tipos de pensamentos endossando algo novo nesse corpo de verdades escondido na constituição de uma “filosofia da vida”, na medida em que essas verdades nos proporcionam novos vôos aos nossos inúmeros questionamentos.

Edith Stein reconhecia uma atualidade no pensamento de Tomás diante da grandeza que repercutiu notáveis frutos no campo da filosofia de sua época, e que tem muito a dizer ao pensamento contemporâneo. A jovem Stein coloca na boca (na sua perspectiva) de Tomás as seguintes palavras:

E mais, o organon que trazia dentro de mim é que possibilitou ao meu espírito enfrentar um grande numero de questões, com um sólido e calmo respondeo dicendum, esse organon a sua marca no “discípulo” tornado-o capaz de responder inúmeras perguntas que em meu espírito , nunca chegaria a ser colocadas e, em meu tempo, teria sido possível colocar. Esse é igualmente o motivo porque hoje as pessoas se voltam para os meus escritos (...) os homens não tem onde sustentar-se e por isso procuram um ponto de sustentação. Querem uma verdade com conteúdo e que possam agarrar-se, que lhes sustente a vida, querem uma “filosofia da vida”.[21]

Refletindo sobre Tomás descobre-se em seus fundamentos a possibilidade de solução para questões teóricas difíceis ou para situações práticas, com as quais nos encontramos desnorteadas. Tudo em prol da verdade que nos conduz em busca de novos horizontes, um alargar-se no olhar para nos conduzir uma aproximação da verdade total.

4. Filosofia teocêntrica e egocêntrica

Existem diferentes caminhos de percorrermos em direção aos fundamentos de cada uma de nossas reflexões filosóficas. Tanto Hussel quanto Tomás concorda “como ponto de partida que à idéia de verdade pertence algo objetivamente subsistente, independente de todo aquele que pesquisa ou busca conhece-lo.[22] No que diferente os caminhos é a problemática da verdade primeira, a “filosofia primeira” como gênero de toda verdade.

Husserl parte do pressuposto da análise do estudo do eu, como a minha consciência apreende o fenômeno e aquilo que me aparece, o aspecto do conhecimento de como o mundo se constitui diante de minha consciência, do qual posso investigar para alcançarmos à essência. A consciência entendida como sendo um conjunto de significações em conexão entre o sujeito e o objeto, entretanto a tentativa de uma compreensão da realidade é necessária a partir da vivencia do homem no mundo.

Nós percebemos, no entanto, que tudo parte da questão do ser. A diferença está na escolha do método para mirar nossa meta reflexiva. Husserl assume como ponto de partida o sujeito, o ponto intermediário de suas investigações filosóficas resultando sempre um mundo para o sujeito.

Em outras palavras, aquilo que denominamos de “mundo ou realidade” são produtos de nossa consciência e ela “constitui a realidade” enquanto estruturas de essências que dependem da própria consciência , ou pela razão, a razão que dá sentido ao mundo.[23]

5. Ontologia e metafísica

A metafísica é a investigação filosófica que se estrutura pela pergunta “o que é?”, este “é”, resulta de dois significados distintos, a saber:[24]

1º - Significa “existe” de modo que a pergunta se refere á existência da realidade e pode ser transmitida como: “o que existe?”

2º - Significa “natureza própria de alguma coisa”, de modo que a pergunta se refere à essência da realidade podendo ser transmitida como: “qual é a essência daquilo que existe?”

Um dos termos fundamentais da investigação metafísica são a existência e a essência da realidade em seu sentido último. O nosso propósito de pensar a relação entre a metafísica de Tomás e a ontologia de Hussel, desdobra-se na esfera especulativa do pensamento de Edith Stein e de sua concepção metafísica que faz usufruir dos dois autores em um tipo de síntese.

Embora a metafísica e a ontologia tenham se iniciado com Parmênides, Platão e com Aristóteles, aquém se atribui o nascimento desses termos. Isso porque Aristóteles foca seu interesse pelo mundo real e verdadeiro quando sua essência é a multiplicidade de seres e a mudança incessante.[25]

Segundo o pensamento aristotélico metafísico, a filosofia primeira é o “estudo do ser enquanto ser”, portanto o que Aristóteles chamou de filosofia primeira passou a ser metafísica. Também afirmou que ela estuda os primeiros princípios e as causas primeiras de todas as essências, aquilo que é condição e fundamento de tudo o que existe e de tudo poder conhecer. Enquanto ontologia, é o conhecimento do ser tendo por objetivo buscar compreender a totalidade do ser, “ciência do ser enquanto ser”. Tomás esforça-se para realizar um fundamento que seja universal da filosofia primeira anunciada pelo aristotelismo, flui da natureza da inteligência e se exprime na aceitação do ser enquanto tal:

O objetivo da filosofia primeira, o ser enquanto ser (on he on) ou ser universal (ens commune), emerge em plena luz no mais simples ato do juízo, e a inteligência deve apenas penetrar sempre mais a sua superabundante inteligência para construir a ciência do ser (...) a originalidade de Tomás de Aquino reside nessa intuição genial pela qual o objeto próprio da metafísica não se situa ao termo de um processo abstrato da inteligência como universalismo do ser (ens generalissimum ut nomem), mas transluz na intencionalidade dinâmico do ato judicativo como identidade dialética entre forma do juízo (est) e o ato ou perfeição suprema (existir, esse).[26]

Tomás busca abarcar de maneira mais completa possível a compreensão do sentido do ser enquanto tal, como também o logos no mundo. Husserl retoma a ontologia geral do qual tem por objetivo o ente, não o ser, em que há entre o ser e o ente distinções. “Distinguem-se como a verdade e o verdadeiro, a realidade e o real (...) há muitas coisas verdadeiras, mas o ser da verdade é um só, que o ente passa a ser vários”. [27]

O que levou Husserl à descoberta da idéia das coisas em si, vem da influência que recebeu de Bretano através do conceito de intencionalidade da relação que estabelecemos com os objetos que estão na nossa consciência, ou seja, nossos atos intencionais. A fenomenologia além de expressar o aparecer do fenômeno, ela nos dá o sentido do ser deste construindo-se ontologia, assim o conceito de ontologia adquire um novo significado acerca da realidade de um determinado domínio do saber, portanto, a questão da essência. A pergunta gira em torno das seguintes formas: o que é a realidade? Como essa realidade se apresenta diante de mim? Como posso compreender? Distinguindo-se da pergunta da tradição: o que é o ser?

Com isso sabemos o quanto à tradição contribuiu para um enriquecimento do pensar filosófico sobre a questão do sentido do ser passando sob o olhar da análise fenomenológica. No campo da nossa discussão percebemos como chave de leitura hermenêutica o pensamento da tradição propriamente dito que, segundo Stein, Tomás tem para acrescentar ao método de Husserl. Nesse sentido de que os dois pensadores da questão para a compreensão do significado do universal, total, essencial, embora saibamos que existem distinções da maneira como Tomás sempre manteve a tese da existência, por exemplo, quando fala do conhecimento dos anjos, do conhecimento dos primeiros homens, ele fazia afirmação sobre a realidade, pois para Tomás a essência encontra-se nas coisas, enquanto que Husserl reduz a essência na descoberta do sentido do ser que capta a essência, portanto, na consciência.

Edith Stein, no que concerne à metafísica de Hussel e Tomás estava portanto na questão da análise objetiva das essências. Ela constrói uma metafísica que parte da ânsia de compreender e enfrentar os mais diversos problemas filosóficos, partindo do questionamento sobre o fundamento último da realidade, sobre a realidade eterna, que é fruto de sua sede pela verdade, a qual lhe conduziu a Deus e ao Carmelo, como podemos perceber nessas palavras:

Isso começou com a busca do núcleo da pessoa humana e logo irrompeu através da estrutura da existência até a base e origem de todo ser. Partindo das considerações dos “fenômenos”, Edith Stein, impulsionada por uma paixão inquieta e ansiosa, até atingir aquela última realidade que envolve e arrebata toda a realidade humana.[28]

Também o seu olhar fenomenológico contribuiu para o caminho das questões sobre o que constitui o ser humano, e do conhecimento a essência da realidade espiritual



[1] Brentano, Franz (1838-1917), foi padre católico que depois abandonou a Igreja e foi professor de filosofia em Viena; sua tese fundamental é a do caráter intencional da consciência ou da experiência em geral.

[2] “A fenomenologia nasceu de uma crise da cultura que se destinava a resolver o problema das ciências do homem, e uma crise das ciências puras. Em fim do século XIX, a Alemanha vê a crise dos grandes sistemas filosóficos tradicionais e os grandes pensadores, Marx, Freud e Nietzsche que estão a produzir de forma que não despertava o interesse ao grande público, apenas a um pequeno grupo. No entanto devido a tendência positivista que se constitui como ciência exata conforme o modelo das tendências naturais, eliminando os aspectos subjetivos, neste aspecto Hussel resolve se dedicar a resolver as novas questões”. Cf. A. A. BELLO,Introdução à fenomenologia, Bauru, 2006, 17.

[3] T. A. GOTO, O fenômeno Religioso, a fenomenologia em Paul Tillich, São Paulo, 2004, 21

[4] U. ZILLES, Edmund Husserl: a crise da humanidade européia e a filosofia, Porto Alegre, 1996, 19.

[5] “O conceito fenomenológico de intencionalidade aplica-se primeiramente a teoria do conhecimento, não a teoria da ação humana no sentido de intenções mentais ou cognitivas e não práticas. É essencialmente consciência de uma experiência de algo ou de outrem. Toda a nossa consciência está direcionada a objetos”. R. SOKOLOWSKI, Introdução à fenomenologia. São Paulo, 2004, 51.

[6] T. A. GOTO, O fenômeno Religioso, 26

[7] N. ABBAGNANO, História da Filosofia. Vol. 12, São Paulo, 2001, 8.

[8] M. A. de OLIVEIRA, Sobre fundamentação, Porto Alegre, 1997, 41.

[9] J. SAVIAN, “Sentido e possibilidade da filosofia cristã, segundo Edith Stein”, Coletânia, Belo Horizonte, 2003, 221.

[10] “Karl Jaspers: Medico e filósofo (Oldenburg, 23.2.1883 – Basiléia, 1969). Foi professor de filosofia em Heideberg até 1937 (quando foi expulso por seu anti-nazismo)”. Cf. G. REALE – D. ANTISERI, História da filosofia, Vol. 6, São Paulo, 2006, 218.

[11] G. REALE – D. ANTISERI, História da Filosofia, Vol. 6, 219

[12] G. REALE – D. ANTISERI, História da filosofia. Vol. 6, 301. (Whitehead, Alfred North, 1861 – 1947); matemático que depois passara a dar aulas de filosofia em Harvard.).

[13] G. REALE – D. ANTISERI, História da Filosofia; Vol. 6, 2006, 303.

[14] “Hermenêutico: No sentido de que o pensamento steiniano nos apresenta uma idéia que transparece um caráter interpretativo sobre questões referentes ao ateísmo em confronto com o método fenomenológico de Hussel trazendo-nos novas questões fundamentais da filosofia contemporânea”. Scintilla, Vol. 2, Nº. 2- 2005.

[15] E. STEIN, O que é filosofia, Curitiba, 2005, 307.

[16] E. STEIN, O que é filosofia, 308.

[17] E. STEIN, O que é filosofia, 310.

[18] Segundo M. CHAUÍ, Convite à filosofia, São Paulo, 2002, 65.

[19] Grifo Nosso: Dom da Graça no significado da revelação cristã, da relação do Criador com a criatura num ato de liberdade.

[20] Aprofundar; palestra: M. A. de OLIVEIRA, UFC: A questão de Deus, no dia 9/6/2007.

[21] E. STEIN, O que é filosofia, 314.

[22] E. STEIN, O que é filosofia, 315.

[23] M. CHAUÍ, Convite à Filosofia, 82.

[24] M. CHAUÍ, Convite à filosofia, 207.

[25] M. CHAUÍ, Convite à filosofia, 217.

[26] H. C. de L. VAZ, “Tomás de Aquino e o destino da metafísica”, In M. A. de OLIVEIRA – C. ALMEIDA (Orgs.), O Deus dos filósofos contemporâneos, Petrópolis, 2002, 45–47.

[27] N. ABBAGNANO, Dicionário de filosofia, 666.

[28] C. FELDMAN, Edith Stein: Judia, ateia e monja, Bauru, 2001, 24.


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