IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL EDITH STEIN

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A LIBERDADE NO MAIS PROFUNDO DO HOMEM.

EDITH STEIN: A LIBERDADE NO MAIS PROFUNDO DO HOMEM.

ELISÂNGELA MARIA DE JESUS *



Edith Stein de maneira consciente se incorpora a corrente fenomenológica , convencida que Husserl era o filósofo de seu tempo. É na fenomenologia que Edith se forma filósofa, identifica-se plenamente, configurando seu pensamento com o espírito fenomenológico.
A conversão ao catolicismo não supõe renúncia à fenomenologia, quando em 1936, redige sua obra filosófica: Ser finito e Ser eterno, da cela de carmelita, recorda que sua pátria filosófica é a escola de Husserl.
Na busca constante de Edith Stein em compreender o homem, situa em todas as suas obras o homem como ser livre. Na visão steiniana razão e liberdade são constitutivos da pessoa, assim pois a razão deverá agregar-se à liberdade.
O homem nasce para ser livre, porém seguramente o que mais opõe resistência a liberdade, é a própria natureza humana tão complexa. Edith Stein afirma que a pessoa é livre diante de tudo, pois determina sua vida diante de si mesmo. Reconhecendo aqui sua afirmação, o principal determinante para ser livre é o defrontar com seu próprio interior, pois é no mais profundo que está a liberdade para ser.
É do lugar mais inconstante, o eu, que o homem está mais próximo de se encontrar e tomar decisões que determinam a evolução do ser, onde as limitações e circunstâncias perdem o poder.
Edith Stein, caminha para o encontro do véu que encobre a verdade sobre o homem. Mulher judia convertida ao cristianismo, fala-nos de maneira maravilhosamente simples da síntese dramática do homem moderno.
A preferência pelo homem a coloca em sintonia com o existencialismo, o homem steiniano não está sem sentido sobre a terra; mas é a sua natureza, que coloca obstáculo ao sentido. A pessoa na visão de Edith Stein, possui potencial para alcançar a plenitude. Aqui vale ressaltar que para chegar a um estado de espírito pleno, o homem faz a travessia pela caverna dos sentidos, onde o cautério, as chagas, são abrandadas pelo toque suave da descoberta do místico, da arte, da liberdade no mais profundo do homem.
A caverna dos sentidos, na visão steiniana é o lugar onde emana o potencial para ser livre. E para Edith Stein compreender o homem como ser livre ultrapassa o conceito clássico: “rationalis natural”, a partir daí o princípio que adapta Edith Stein cai formulado da seguinte maneira: “o filósofo que não quer ser infiel a sua finalidade de compreender o ente até suas últimas causas, se vê obrigado a estender suas reflexões no campo da fé, mais além do que lhe é acessível naturalmente.”
Procurando compreender um pouco esta subjetividade steiniana, percebemos em correlação com as inquietudes existencialistas, que Edith Stein concebe a vida do homem como um projeto, algo inacabado, aperfeiçoamento, porém pertencente ao homem mesmo. A liberdade humana possui um potencial suficiente para conseguir fazer a passagem de um indivíduo para uma pessoa singular.
A liberdade para Edith Stein está no plano do auto-domínio e para essa liberdade acontecer o homem deve estar no seu “lugar”. Este lugar não supõe uma subjetividade infrutífera, mas situa-se no constante “devir” da existência humana.
Cabe aqui salientar que Edith Stein, não esmaga a razão, mas plenifica-a, no sentido de que a razão dirige-se sobre o mundo porque este é inteligível, está impregnado de racionalidade; e ainda que não estivesse, haveria de projetá-lo para fazê-lo compreensível.
Edith Stein defende o conceito amplo de racionalidade, tão amplo como são os múltiplos recursos cognitivos do homem, por isto ultrapassa a idéia clássica : O homem racional.
Esta visão steiniana do homem livre nos faz buscar no próprio caminho traçado por cada um, o sentido que nos faz livres, pois somos livres se consentimos isto.
Em um momento de sua vida, exclama Edith: “Eis a verdade”, ao ler a autobiografia de Santa Teresa de Ávila, entre um fim de tarde e o raiar do dia seguinte e após, pediu o batismo na Igreja Católica, deixando após anos de inquietação o judaísmo, religião em que fora introduzida quando criança.
Vemos Edith na academia, tendo como mestre Husserl, mantendo contato com grandes figuras como Heidegger, que a ajudou para que elaborasse sua tese: “Sobre o problema da Empatia”, em 1916 defende esta tese, torna-se doutora.
Em 1933 entra para o Carmelo de Colônia onde viveu uma vida simples de carmelita, com todas as abnegações pertinentes a clausura. Mais tarde é transferida para Echt, na Holanda onde em 1942, a Gestapo invade o carmelo e leva Edith para Auschwitz, aqui revela a liberdade para Edith, quando em silêncio caminha para o holocausto, nenhuma expressão é proferida: resta o silêncio.
Morre aos 09 de agosto, numa câmara de gás. Seu caminho constitui-se de escolhas que contribuem para uma apreciação sobre a liberdade do homem que pode ser compartilhada de forma simples e dramática ao mesmo tempo.
Em Edith Stein, não achamos respostas para o homem conseguir a liberdade, uma vez que estar livre é consentir estar. Não deriva do pensamento Steiniano a verdade plena do homem, mas a percepção do caminho, das escolhas, das decisões que são tomadas a partir do próprio homem diante de si mesmo. A resignação, o silêncio, pode ser ou não liberdade. A angústia da morte, neste caso o holocausto, permite ao silêncio, uma série de interpretações subjetivas a partir do nosso próprio conceito de liberdade.
E este conceito, nasce e morre a cada instante, pois somos senhores e escravos dos nossos atos, determinamos a vida diante de nós mesmos. Não cabe aqui concluir nada, pois o homem com toda sua limitação, não se opõe a gozar de liberdade, uma vez que esta é constitutiva de seu ser e legitimada pelo livre arbítrio.


BIBLIOGRAFIA:

GARCIA, J. T. Santa Edith Stein: da universidade aos altares. São Paulo, EDUSC,1998.
STEIN, Edith. Estrellas Amarillas. Madrid, Ed. Espiritualidad, 1973
STEIN, Edith. Ser finito y Ser Eterno. México, Fundo de Cultura Econômica, 1994.

* Pedagoga
Pós-graduada em Pedagogia Empresarial
e-mail: elisdejesus@hotmail.com
São João da Cruz em A Subida do Monte Carmelo
Ser finito e Ser eterno

Elisângela Maria de Jesus

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 07/04/2006

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