IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL EDITH STEIN

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A pessoa humana à luz da “Ciência da Cruz”

Carlos Daniel Nascimento


A obra “A Ciência da Cruz” é o último escrito de Edith. Essa obra ficou inacabada, pois quando Edith estava escrevendo sua última parte, foi presa pelas tropas do nazismo. “Imolada pelos seus e no meio deles, ela o seria ao compartilhar a sorte de milhares de vítimas queimadas nos fornos crematórios do campo de concentração de Auschwitz.” (MIRIBEL, 2001, p. 121).
Edith Stein, sendo uma mulher de garra, corajosa não hesitou em escrever para o papa Pio XII. Nesta carta, ela o aconselhou a escrever uma carta condenando o sistema ignominioso do nazismo. Sua carta é um forte sinal que poderá lembrar a humanidade de que o genocídio jamais deverá acontecer novamente.
Essa obra é indispensável no estudo da pessoa humana, visto que é a obra mais madura de Edith. Certamente, todas as suas obras têm como centro a pessoa humana, mas é justamente nessa onde a fenomenóloga atinge o ápice do seu conceito de pessoa.
Edith Stein, na obra “A Ciência da Cruz”, deseja entrar na doutrina de são João da Cruz, a fim de torná-la mais clara com o auxílio dos resultados das pesquisas modernas sobre a filosofia da pessoa e introduzir no seu vocabulário palavras como (eu, liberdade, pessoa), que são desconhecidas do santo doutor. A obra é dividida em três partes principais: A mensagem da Cruz; a doutrina da Cruz; A escola da Cruz. Onde a parte mais importante é a da doutrina da cruz, visto que Edith irá usar mais evidentemente a fenomenologia.
Nesse sentido, Edith procura ajudar o ser - humano na busca pela plenitude do ser. Stein não se contenta em apenas comentar a obra do santo doutor, mas busca dar uma interpretação pessoal e modernizada das leis que regulam o ser e a vida espiritual.

Ao invés de limitar-se a comentar os textos do santo, ela desenvolve, ulteriormente, a doutrina dele sobre a Cruz, até atingir o núcleo da filosofia da pessoa. Na resenha das leis fundamentais que regem o ser espiritual, sua atenção se polariza, especialmente, nas questões concernentes à essência e ao destino da criatura humana: o eu, a pessoa e a liberdade[...] (STEIN apud GARCIA, 1987, p. 61).

Para Stein, os sentidos são os órgãos do corpo, uma vez que o nosso corpo se utiliza deles, contudo são também janelas da alma, visto que por meio deles a alma tem conhecimento do mundo exterior. Nota-se uma sensibilidade presente tanto no corpo quanto na alma. A alma possui impressões que nos permitem termos um conhecimento do mundo empírico. Também estão presentes as alegrias e os desejos presentes que são suscitados e impressos pelos sentidos.
A atividade espiritual é indispensável na vida sensitiva, pois existe uma ligação intrínseca entre a alma sensível e a alma espiritual. Não devemos pensar que há dois planos sobrepostos, mas lembrarmos de que o homem é este ser que vive numa estrutura harmônica, ou seja, num todo, que é o espírito, a alma e o corpo.
É bem verdade que o homem só é feliz quando encontra seu próprio ser, que está no íntimo de sua alma, no seu interior, no seu coração. E é justamente na segunda parte (a doutrina da Cruz), onde Edith trata da intimidade da alma, onde o eu vive a sua liberdade. Toda alma possui sua intimidade, cuja existência já tem vida, vida esta até então imperceptível ao próprio homem, até que se formem os pensamentos do seu coração.

O que aí é dito sobre o “eu, a liberdade e a pessoa” não provém dos escritos do Pai. Nestes, encontramos apenas alguns indícios. Ora, tratar desses assuntos não foi sua intenção, nem corresponde a seu modo de pensar. A elaboração de uma filosofia da pessoa, da qual há somente indícios em trechos indicados, constitui tarefa da moderna filosofia. (STEIN, 2004, p. 7).

Quando está no seu interior, a alma está à vontade, “em casa”, ou no seu repouso.

O homem é chamado a viver no seu íntimo, tomando nas mãos a direção de si mesmo, e na medida do possível, agindo a partir daí. Somente partindo deste ponto é possível um exato confronto com o mundo: somente partindo daí o homem pode encontrar, no mundo, o lugar que lhe compete. Ele, porém, não pode jamais explorar totalmente seu íntimo [...] (STEIN apud GARCIA, 1987, p.62).

É preciso que o homem encontre-se consigo mesmo e descubra seu valor, a sua dignidade de pessoa, de ser humano capaz, para que possa viver plenamente. O homem é chamado a viver no seu íntimo, tomando em mãos o governo de todo seu ser; somente partindo deste ponto, o homem pode encontrar, no mundo, o lugar a ele destinado.


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