IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL EDITH STEIN

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O método fenomenológico e a influência tomista em Edith Stein

Carlos Daniel Nascimento

O método fenomenológico

A busca de Edith Stein pela composição do ser humano se dá por meio da fenomenologia husserliana. A fenomenologia é uma escola filosófica que foi criada por Edmund Husserl, mestre de Edith, na Alemanha, no final do século XIX e início do século XX.

O método com o qual tratarei de solucionar os problemas é o fenomenológico. É dizer, o método que E. Husserl elaborou e empregou pela primeira vez no volume II de suas investigaciones lógicas, mas que, estou convencida, já havia sido empregado pelos grandes filósofos de todas as épocas, se bem não de modo exclusivo nem com uma clara reflexão sobre o próprio modo de proceder. (STEIN, 1998, p. 49)

A palavra “fenomenologia”, na sua etimologia, possui duas partes, que foram originadas do grego. “Fenômeno” significa aquilo que se mostra; esse termo não pode ser entendido somente como aquilo que aparece ou parece. “Logia” provém do termo logos, que para os gregos poderia significar palavra, pensamento ou capacidade de reflexão. Podemos abstrair disso que a fenomenologia é a reflexão que se faz de um fenômeno, ou seja, daquilo que se mostra. Quando alguma coisa se mostra, essa se mostra ao homem, à pessoa humana. O homem é aquele que busca o sentido daquilo que se mostra.

Muitas vezes, numa primeira impressão, pensamos que as coisas que se mostram a nós são sempre coisas físicas, contudo existem as que são abstratas. Um exemplo disso é a palavra “república”; nós a utilizamos para designar uma coisa pública, porém ela não se refere a nada físico.

Acabo de mencionar o princípio mais elementar do método fenomenológico: fixar nossa atenção nas coisas mesmas. Não interrogar a teorias sobre as coisas, deixar fora enquanto seja possível o que se tem ouvido e lido e as composições de lugar que um mesmo se tem feito, para, mais bem, acercar-se das coisas com uma olhada livre de prejuízos e beber da intuição imediata. Se queremos saber que é o homem, temos que pôr-nos do modo mais vivo possível na situação em que experimentamos a existência humana, é dizer, o que dela experimentamos em nós mesmos e em nossos encontros com outros homens. (STEIN, 1998, p. 49).

Esse método fenomenológico de conceber o mundo permite ao ser humano voltar às próprias coisas, e ultrapassar a análise e a explicação científica. A inovação trazida por Husserl nos permite voltar ao mundo anterior ao conhecimento, e do qual o conhecimento fala constantemente. A fenomenologia nos permite irmos diretamente às coisas, indagando a elas mesmas o que dizem de si próprias, resultando em certezas que certamente seriam diferentes de teorias pré-concebidas. Portanto, antes de se fitar alguma coisa, deve-se anteriormente a isso, colocar entre “parênteses” todo “preconceito” que se tenha em relação àquele fenômeno, e depois de observá-lo sem nenhum preconceito, buscar o seu sentido.

As coisas manifestas ao homem só podem ser consideradas fenômenos se elas possuírem sentido. Para encontrarmos o sentido das coisas, precisamos, às vezes, de uma análise mais aprofundada, uma vez que nem tudo pode ser compreendido instantaneamente. Isso consiste em identificar o sentido das coisas, os fenômenos que se mostram a nós.

Para entendermos os fenômenos, devemos trilhar um caminho[1], que para Husserl é formado por dois momentos: a redução eidética (busca pelo sentido dos fenômenos) e a redução transcendental (como o sujeito busca esse sentido).

Nessa busca pelo sentido dos fenômenos, é possível ao homem encontrar e entender o sentido das coisas. O homem precisa saber qual o sentido das coisas em sua vida habitual para que o mesmo possa orientar-se em seus caminhos. Em algumas ocasiões, ele tem a capacidade de identificar instantaneamente o sentido das coisas, todavia, em outras, ele já pode encontrar certas dificuldades. O homem usa sua intuição para a captação do sentido das coisas, e por meio do sentido, a essência das coisas. A intuição é a relação de consciência que nós temos com um objeto. O voltar a essa intuição originária é o passo do verdadeiro conhecimento. Quando um fato se nos apresenta à consciência , com ele captamos uma essência . As essências das coisas estão sempre presentes quando os fenômenos se mostram.

Façamos uma experiência semelhante às que Husserl propõe: alguém bate a mão sobre a mesa, identifico logo que é um som. Todos nós identificamos esse som. Como o fazemos? Imediatamente, intuitivamente. Escutamos qualquer coisa e dizemos “é um som”. Sempre o fazemos assim, se não pudermos fazer, é por algum problema, mas não havendo problema, somos capazes de intuir, isto é, colocar em perspectiva a essência, o sentido da coisa. (BELLO, 2006, p.22-23).

É importante que fique claro que a fenomenologia busca o sentido das coisas e não os aspectos do objeto, como sua existência e os fatos. O fato de existir não é interessante ao método fenomenológico, mas tão somente o seu sentido.

Husserl procura deixar bem claro, em suas Investigações Lógicas, a diferença que tem a fenomenologia da psicologia. Ele explica que a psicologia é a ciência de dados da realidade. Os fenômenos analisados por ela são todos retirados da realidade, onde seus sujeitos vivem no mundo real do espaço e do tempo. A fenomenologia trata da essência das coisas e não de dados da realidade. Esta possibilita apenas a redução eidética (a busca do sentido dos fenômenos), cuja idéia é purificar os fenômenos psicológicos de seus atributos reais para torná-los gerais e essenciais. Portanto, a fenomenologia pode ser entendida como uma corrente filosófica particular que estuda e investiga através da redução fenomenológica.

O método fenomenológico é o caminho pelo qual Edith Stein realizou a sua formação fenomenológica. Sendo assistente de Husserl, ela pôde beber da fonte do criador da fenomenologia.

Podemos entender tudo isso por uma forma bem simples: as coisas físicas ou não físicas se mostram (fenômeno). O homem as percebe e busca os seus sentidos. O método utilizado é o da fenomenologia, o qual deve excluir tudo que não seja o sentido da coisa. Por meio de tudo isso, o homem pode conhecer o sentido das coisas.

No segundo capítulo, trataremos de saber como o homem busca esse sentido das coisas e também quem, de fato, é esse homem.


1.2 A influência de Santo Tomás na filosofia Steiniana

Para tomarmos o pensamento de Edith, temos que nos deter um pouco na filosofia tradicional, por meio do pensamento de Santo Tomás de Aquino, de onde Edith parte para iniciar, neste aspecto, o seu trabalho. Essa retomada se faz necessária para que, ao tomarmos o pensamento de Edith, este nos seja mais evidente. Após entendermos o que isso significa, poderemos continuar nosso itinerário.

Espírito especulativo, desde os primeiros tempos de sua conversão, sentiu a atração por Sto. Tomás de Aquino que estudou a fundo, assimilando com seguro intuito os valores perenes, incluindo-os com agudo propósito na trama do método husserliano (...) Esta sua afinidade com Sto. Tomás lhe nasce espontaneamente, por uma simpatia espiritual quase que de almas gêmeas, mais do que por formação de escola. (FABRO apud GARCIA, 1987, p. 42).

Vejamos qual é o pensamento de Santo Tomás diante do ser divino e do ser da criatura:

[... S. Tomás distingue, com mais precisão, o ser das criaturas, separável de sua essência e, portanto, criado, do ser de Deus, idêntico à essência e, portanto, necessário. Esses dois significados do ser não são unívocos, isto é, idênticos, nem equívocos, isto é, simplesmente diferentes; são análogos, ou seja, semelhantes, mas de proporções diversas. Só Deus tem o ser por essência; as criaturas o têm por participação; elas, enquanto são, são semelhantes a Deus, que é o primeiro princípio universal do ser, mas Deus não é semelhante a elas: esta relação é a analogia...] (ABBAGNANO, 1999, p. 56).

Em outras palavras, Santo Tomás deixa notável a distinção entre o ser do criador e o ser da criatura. O ser da criatura depende do ser do criador para existir, ou seja, o criador se faz absolutamente preciso à criatura. O termo “ser” quando se refere à criatura tem um valor, porém quando se refere ao ser de Deus, já possui outro valor. O ser da criatura só pode ser considerado semelhante ao ser de Deus. Deus não recebe de outrem sua existência, pois Deus é existência como substância[2] simples, perfeita e se torna o princípio de outros seres. Assim o homem, ainda na visão de Santo Tomás, é uma substância composta de forma e de matéria, onde corpo e alma são necessários para o ser humano. Se tomarmos um corpo apreendido sem alma ou uma alma apreendida sem corpo não podemos considerá-los como seres – humanos; uma vez que para haver essência, é necessário assimilar duas coisas: a matéria e a forma.

Essa base filosófica de Santo Tomás de Aquino, nós a utilizaremos com mais afinco no terceiro capítulo, onde o homem será observado enquanto imagem de Deus.

[1] No grego: méthodo. Essa palavra é formada de duas partes: “meta”, que significa por meio de; e “odos” que designa estrada.

[2] O termo “Substância”, tanto no aristotelismo como na escolástica, é tido como a realidade que permanece imutável sob os acidentes múltiplos e mutáveis, servindo-lhes de apoio; aquilo que subsiste por si, portando-se independentemente em relação às suas qualificações e estados.

Um comentário:

Marcelo Agnan disse...

Saudações Moisés!
É oportuna a reflexão sobre o caminho filosófico de Edith; especialmente por que ela busca um profundo amor pela verdade, expressando esta busca pela compreensão daquilo que nos distingue das outras espécies, ou seja, a capacidade de criar meios para a compreensão das coisas e a busca de significação delas.
Desta maneira não estamos "imersos nos fenômenos", há um deslocamento, uma saida cognitiva que como pulsão fundamental de nossa própria natureza aspira à compreensão.
Os fenômenos revelam-se de tal forma capazes de inteligibilidades.
Vejo que Santo Tomás, inspirado por Aristóteles, como você bem disse, ilumina o caminho de Edith, pois sua "metafísica" parte de uma reflexão imanente. O mundo como realidade possível de compreensão e sentido. E esta compreensão e sentido só se esclarece quando se descobre os graus valorativos da realidade do ser.
Os fenômenos são compreensíveis e possíveis de significação na medida em que se possa perceber o que é permanente e acidental.
Teresa, mãe espiritual de Edith, na sua radicalidade "fenomênica" enquanto perscrutadora de sentido do fenômeno humano chega à compreensão daquilo que é susbstancial à realidade com a afirmação: só Deus Basta!
O amadurecimento filosófico de Edith não poderia resultar em outra coisa: a descoberta do ser enquanto substância e depencia do ser contingente na diversidade dos entes.
Numa cultura pós-moderna superficial e individualista o caminho de Edith é um paradígma para que a experiência de encontro significativo do mundo possa voltar a ser o que nos caracteriza como humanos.
Marcelo
OCDS - Franca - SP.