IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL EDITH STEIN

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Que viste no meu rosto?


O encontro entre Edith Stein e Etty Hilesum no campo holandês de Westerbork
Os olhares de duas mulheres extraordinárias cruzaram-se antes de enfrentar o inferno de AuschwitzPublicamos o prefácio ao livro Il volto. Principio di interiorità. Edith Stein, Etty Hillesum (Milano, Marietti, 96 páginas, 14 euros) de Cristiana Dobner Duas das intelectuais mais interessantes do século XX, duas mulheres extraordinárias, além do mais tendo em comum o facto de serem judias, deportadas e mortas em Auschwitz, Edith Stein e Etty Hillesum, encontraram-se pessoalmente.
Sabemos que este encontro teve lugar no campo holandês de Westerbork, precisamente antes da deportação para o campo de extermínio. Sabemos isto por uma breve anotação de Etty, que narra a chegada de duas freiras, «nascidas numa família judia, rica e culta, de Breslau», Edith e a irmã Rosa. Mas nunca saberemos o que disseram, nunca poderemos assistir à troca de olhares. Partilhamos, com Cristiana Dobner, a certeza que se tenham «reconhecido» pelos seus rostos, aqueles rostos que, escreve a autora, revelam «a singularidade e a individualidade concreta da pessoa».
Existem géneros literários que simulam encontros nunca realizados, em geral entre o autor e uma personagem que viveu noutros tempos, sem dúvida famoso. Chamam-se «entrevistas impossíveis» e gozaram de grande sorte. Ao contrário, o ensaio de Cristiana Dobner escolheu outro percurso, mais difícil e profundo: imaginar e descrever o que cada uma das duas mulheres viu no rosto da outra.
Sabendo que se trata de rostos que revelavam uma longa reflexão interior, rostos que eram espelho da interioridade, conscientes do significado das relações humanas, rostos que tinham escrito o vestígio de outros encontros que tinham vivido, densos de sentido.Precisamente repercorrendo o seu pensamento e os encontros importantes tidos, Cristiana Dobner procurou reconstruir o que o rosto de cada uma dissera à outra sem palavras, até só com um olhar. Um olhar que, sobretudo num momento tão dramático, sem dúvida era capaz de ler dentro, de captar o significado essencial daquele olhar-se recíproco.
O rosto de Edith é reconstruído através de um exame atento das poucas fotografias e sobretudo através das palavras de quantos se encontraram com ela, fielmente recordadas nos autos do processo de beatificação de que a autora dispõe. Uma fonte em geral ignorada, mas muito rica. Alguns destes encontros narrados realizam-se quando Edith está em clausura, portanto só um rosto velado por detrás da grade, e a sua alma se revela pela voz, pelas palavras. As palavras mais intensas sobre elas são as do amigo sacerdote Eric Pržywara, que descreve «o amor fiel e inabalável ao seu povo e (…) a força que emanava». Confirmando um estilo que, escreve Dobner, «vibra de força clássica, filosófica – na união entre a filosofia fenomenológica de Edmund Husserl, então dominante, e o pensamento de Tomás de Aquino – de força artística, preferindo Bach e Reger e a hinologia da Igreja».Também Etty, quando encontra Edith, transmite força. Nela a terrível angústia da espera do momento da deportação «inexplicavelmente se torna força de vida e não debilidade assustadora». O longo e doloroso percurso de Etty é menos intelectual que o de Edith, mais experiencial: o verdadeiro rosto da jovem judia holandesa sobressai graças ao encontro com um original psicanalista quirólogo, Julius Spier, que a conduzirá a um longo e doloroso caminho dentro de si mesma. Etty é guiada neste percurso por um fio condutor, as palavras que conheceu na Torah «Deus criou o homem à sua imagem», mas sabe que este fio é submetido a tensões contínuas. Em cadernos, cartas e diários, Etty narra minuciosamente esta sua viagem interior, esta descoberta do seu verdadeiro rosto. Precisamente porque conseguiu compreendê-lo, não leva para o campo retratos de pessoas queridas, sabe que os seus rostos são conservados nas paredes do seu eu interior, onde os encontrará sempre. A escolha do rosto como intermediário privilegiado de comunicação, por parte da Dobner, não é casual: a autora está consciente de que o tema do rosto se tornou «o novo e mais nobre discurso filosófico da modernidade», como explicou claramente Emmanuel Lévinas, grande filósofo judeu, que escreveu que o rosto, permitindo o encontro com o outro, abre à ideia de infinito.«Desta forma instaura-se – escreve Cristiana Dobner – uma relação na qual se procura o outro, mas o sentido profundo não é contido na própria relação mas reenvia mais além». E sem dúvida esta abertura ao infinito estava muito presente na mente e no coração das duas mulheres, quando se encontraram, ambas abertas à epifania do divino. Talvez o tenham encontrado juntas, mesmo se por poucos instantes, e o seu olhar recíproco foi um dom antes do inferno que estavam para enfrentar.
Lucetta Scaraffia
23 de Fevereiro de 2012

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