PEREGRINAÇÃO: NOS PASSOS DE EDITH STEIN

PEREGRINAÇÃO: NOS PASSOS DE EDITH STEIN
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terça-feira, 9 de agosto de 2011

O PAI-NOSSO E AS PALAVRAS DE JOÃO PAULO II NA CERIMÔNIA DE CANONIZAÇÃO DE EDITH STEIN, NO DIA 11 DE OUTUBRO DE 1998.

Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Gl 6, 14).

*PAI NOSSO QUE ESTAIS NOS CÉUS
1.SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME
As palavras de São Paulo aos Gálatas, que acabamos de escutar, adaptam-se bem à experiência humana e espiritual de Teresa Benedita da Cruz, que hoje é solenemente inscrita no álbum dos santos. Também ela pode repetir com o Apóstolo: Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.

2.VENHA A NÓS O VOSSO REINO
A cruz de Cristo! No seu constante florescimento, a árvore da Cruz dá sempre renovados frutos de salvação. Por isso, os fiéis olham com confiança para a Cruz, haurindo do seu mistério de amor a coragem e o vigor para caminhar com fidelidade nas pegadas de Cristo crucificado e ressuscitado. Assim, a mensagem da Cruz entrou no coração de muitos homens e mulheres, transformando a sua existência.

3.SEJA FEITA A VOSSA VONTADE
ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU
Um exemplo eloquente desta extraordinária renovação interior é a vicissitude espiritual de Edith Stein. Uma jovem em busca da verdade, graças ao trabalho silencioso da graça divina, tornou-se santa e mártir: é Teresa Benedita da Cruz, que hoje repete do céu a todos nós as palavras que caracterizaram a sua existência: «Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de Jesus Cristo».
No dia 1 de Maio de 1987, durante a minha visita pastoral na Alemanha, tive a alegria de proclamar Beata, na cidade de Colônia, esta generosa testemunha da fé. Hoje, a onze anos de distância aqui em Roma, na Praça de São Pedro, é-me dado apresentar solenemente esta eminente filha de Israel e filha fiel da Igreja como Santa perante o mundo inteiro.
Assim como nessa data, também hoje nos inclinamos diante da memória de Edith Stein, proclamando o testemunho invicto que ela deu durante a vida e sobretudo com a morte. Ao lado de Teresa de Ávila e de Teresa de Lisieux, esta outra Teresa vai colocar-se no meio da plêiade de santos e santas que honram a Ordem carmelitana.

4.O PÃO NOSSO DE CADA DIA
NOS DAI HOJE
Diletos Irmãos e Irmãs! Porque era judia, Edith Stein foi deportada juntamente com a irmã Rosa e muitos outros judeus dos Países Baixos para o campo de concentração de Auschwitz, onde com eles encontrou a morte nas câmaras de gás. Hoje recordamo-nos de todos com profundo respeito. Poucos dias antes da sua deportação, a quem lhe oferecia uma possibilidade de salvar a vida, a religiosa respondera: «Não o façais! Por que deveria eu ser excluída? A justiça não consiste acaso no fato de eu não obter vantagem do meu batismo? Se não posso compartilhar a sorte dos meus irmãos e irmãs, num certo sentido a minha vida é destruída».
Doravante, ao celebrarmos a memória da nova Santa, não poderemos deixar de recordar todos os anos também o Shoah, aquele atroz plano de eliminação de um povo, que custou a vida a milhões de irmãos e irmãs judeus. O Senhor faça brilhar o seu rosto sobre eles, concedendo-lhes a paz (cf. Nm 6, 25s.).

5.PERDOAI-NOS AS NOSSAS OFENSAS
ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS
A QUEM NOS TEM OFENDIDO
Estimados Irmãos e Irmãs! O amor de Cristo foi o fogo que ardeu a vida de Teresa Benedita da Cruz. Antes ainda de se dar conta, ela foi completamente arrebatada por ele. No início, o seu ideal foi a liberdade. Durante muito tempo, Edith Stein viveu a experiência da busca. A sua mente não se cansou de investigar e o seu coração de esperar. Percorreu o árduo caminho da filosofia com ardor apaixonado e no fim foi premiada: conquistou a verdade; antes, foi por ela conquistada. De fato, descobriu que a verdade tinha um nome: Jesus Cristo, e a partir daquele momento o Verbo encarnado foi tudo para ela. Olhando como Carmelita para este período da sua vida, escreveu a uma Beneditina: «Quem procura a verdade, consciente ou inconscientemente, procura a Deus».
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6.NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO
Santa Teresa Benedita da Cruz conseguiu compreender que o amor de Cristo e a liberdade do homem se entretecem, porque o amor e a verdade têm uma relação intrínseca. A busca da verdade e a sua tradução no amor não lhe pareciam ser contrastantes entre si; pelo contrário, compreendeu que estas se interpelam reciprocamente. (...) A Irmã Teresa Benedita da Cruz diz a todos nós: Não aceiteis como verdade nada que seja isento de amor. E não aceiteis como amor nada que seja isento de verdade!(...) Como esposa da Cruz, a Irmã Teresa Benedita da Cruz não escreveu apenas páginas profundas sobre a “ciência da cruz”, mas percorreu até o fim o caminho da escola da Cruz. (...) Através da experiência da Cruz, Edith Stein pôde abrir um caminho rumo a um novo encontro com o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. A fé e a cruz revelaram-se-lhe inseparáveis. Amadurecida na escola da Cruz, ela descobriu as raízes às quais estava ligada a árvore da própria vida. Compreendeu que lhe era muito importante «ser filha do povo eleito e pertencer a Cristo não só espiritualmente, mas inclusive mediante um vínculo sanguíneo».

7. MAS LIVRAI-NOS DO MAL
«Deus é espírito e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em espírito e verdade» (Jo 4, 24). Caríssimos Irmãos e Irmãs, com estas palavras o divino Mestre entretém-se com a Samaritana junto do poço de Jacob. Quanto Ele deu à sua ocasional mas atenta interlocutora, encontramo-lo presente também na vida de Edith Stein, na sua «subida ao Monte Carmelo ». A profundidade do mistério divino tornou-se-lhe perceptível no silêncio da contemplação. Ao longo da sua existência, enquanto amadurecia no conhecimento de Deus adorando-O em espírito e verdade, ela experimentava cada vez mais claramente a sua específica vocação de subir à cruz juntamente com Cristo, de abraçá-la com serenidade e confiança, de amá-la seguindo as pegadas do seu dileto Esposo: hoje, Santa Teresa Benedita da Cruz é-nos indicada como modelo em que nos devemos inspirar e como protetora à qual havemos de recorrer. Demos graças a Deus por este dom. A nova Santa seja para nós um exemplo do nosso compromisso no serviço da liberdade e na nossa busca da verdade. O seu testemunho sirva para tornar cada vez mais sólida a ponte da recíproca compreensão entre judeus e cristãos. Santa Teresa Benedita da Cruz, ora por nós! Amém.

Horácio Dídimo
As Harmonias do Pai-Nosso

terça-feira, 22 de março de 2011

Sacerdotes e teólogos precisam de mais metafísica


Apresentada reforma dos estudos eclesiásticos de filosofia


CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 22 de março de 2011 (ZENIT.org) - É necessário aumentar os estudos dedicados à filosofia, não como uma extensão das ciências humanas, mas entendida no seu núcleo central: a busca da verdade, acompanhada por uma disciplina estrutural como a lógica, em um período histórico em que a razão é ameaçada pelo relativismo.
Este é um dos temas centrais do "Decreto de reforma dos estudos eclesiásticos de filosofia", aprovado pelo Papa Bento XVI em 28 de março e apresentado hoje, em coletiva de imprensa, pelo cardeal Zenon Grocholewski, prefeito da Congregação para a Educação Católica.

Acompanhavam-no o cardeal Jean-Louis Bruguès, secretário da Congregação, e o reitor da Universidade Pontifícia de São Tomás de Aquino (‘Angelicum'), Charles Morerod. Na apresentação, além dos jornalistas, havia também um numeroso público acadêmico.

"‘Ecclesia semper est reformanda' atende às novas exigências da vida eclesiástica nas mutáveis circunstâncias socioculturais", disse o cardeal Grocholewski, lembrando que existe atualmente grande "fraqueza na formação filosófica de muitas instituições da Igreja".

Isso, também, "em uma época em que a própria razão é ameaçada pelo utilitarismo, pelo ceticismo, pelo relativismo e pela desconfiança da razão para conhecer a verdade sobre os problemas fundamentais da vida", constatou.

Esta reforma, portanto, leva a cabo as recomendações feitas na encíclica ‘Fides et ratio', de João Paulo II, já que "a teologia sempre teve e continua tendo necessidade da filosofia". Caso contrário, disse o cardeal, "a teologia não tem o chão sob seus pés".

Que filosofia?

O cardeal Grocholewski explicou que a intenção da Igreja é recuperar a metafísica, isto é, uma filosofia que volte a apresentar as questões mais profundas do ser humano.

Os avanços tecnológicos e científicos, afirmou, "não abrangem a totalidade do saber; sobretudo, não saciam a sede do homem sobre as perguntas últimas: em que consiste a felicidade? Quem sou eu? O mundo é resultado do acaso? Qual é o meu destino? Hoje, mais do que nunca, as ciências precisam de sabedoria".

Pretende-se, portanto, "recuperar a vocação original da filosofia, ou seja, a busca da verdade e da sua dimensão sapiencial e metafísica", insistindo "na necessidade de ampliar os espaços da racionalidade", por um lado, e de "defender-se do perigo do fideísmo", por outro.

Nesse sentido, o reitor da ‘Angelicum', Charles Morerod, explicou a importância da metafísica para o estudo da teologia, e convidou a "recuperar com força a vocação original da filosofia".

"O cristianismo pressupõe uma harmonia entre Deus e a razão humana. A busca filosófica pode, portanto, confiar, e o crente pode evitar opor à sua fé uma verdade encontrada com a razão."

A reforma, portanto, pretende sublinhar "o caráter sapiencial e metafísico da filosofia". "O papel central da metafísica deve ser entendido, assim, à luz da importância da filosofia do conhecimento humano."

"A importância da filosofia está diretamente ligada ao desejo humano de conhecer a verdade e organizá-la. A experiência mostra que o conhecimento da filosofia ajuda a organizar melhor, em cooperação com outras disciplinas, o estudo de qualquer ciência."

"A metafísica quer conhecer o conjunto da realidade - que culmina com o conhecimento da ‘Causa primeira' de tudo - e mostrar a inter-relação entre os vários campos do saber, evitando o encerramento de cada ciência em si", acrescentou o reitor da ‘Angelicum'.

O tomismo

"A Igreja dá destaque à filosofia tomista, não como exclusiva, mas exemplar", recordou o cardeal Grocholewski, em seu discurso, citando a ‘Fides et Ratio', quando afirma que "nem todas as filosofias são compatíveis com fé e com uma razão adequada à verdade".

O Papa Bento XVI aprovou as alterações que reformam três artigos da Constituição Apostólica ‘Sapientia christiana', em 28 de janeiro, dia de São Tomás de Aquino. A maioria das mudanças se relaciona com as normas de aplicação.

O cardeal sublinhou também que a lógica na filosofia é necessária na medida em que é uma disciplina estruturante para a razão, desaparecida sobretudo devido ao atual colapso da cultura cristã.

Mais filosofia

Dom Jean Louis Bruguès explicou que a reforma afeta as faculdades eclesiásticas de filosofia, o primeiro ciclo de teologia, as instituições de filosofia filiadas ou ligadas a uma faculdade de teologia e as instituições teológicas agregadas a uma faculdade de filosofia.

Nas faculdades eclesiásticas de filosofia e nos institutos de filosofia, o primeiro grau dos estudos eclesiásticos dura de 2 a 3 anos. "Isso porque a experiência tem demonstrado que a duração anterior não era suficiente", disse ele. Entre as disciplinas obrigatórias - filosofia do conhecimento, da natureza, do homem e do ser -, agora se acrescenta uma disciplina estrutural: a lógica.

Também se estabelece uma hierarquia entre as disciplinas, de acordo com o grau de obrigação, e se enfatiza a importância de "ler os textos dos autores mais significativos".

Para melhorar a qualidade dos estudos dos futuros sacerdotes, professores e especialistas, portanto, será necessário ter professores devidamente qualificados, com doutorado em filosofia e, na medida do possível, que este título seja eclesiástico. E assim, as faculdades de filosofia precisarão de um mínimo de 7 professores estáveis ​​(5, no caso dos institutos).

Nas faculdades de teologia, no entanto, o número total de anos de estudo não mudará, mas vai aumentar o peso da filosofia nos primeiros anos, também em número de créditos. Além disso, "o número de professores estáveis deve ser de pelo menos 2".



fonte:http://www.zenit.org/article-27556?l=portuguese

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Eliminar Deus da educação destrói círculo do saber


O Papa Bento XVI

Papa recebe participantes da plenária do dicastério para a Educação Católica
CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) - O Papa Bento XVI sublinhou hoje a importância da presença de Deus no contexto da educação, ao receber em audiência os participantes da Plenária da Congregação para a Educação Católica.

"O Beato John Henry Newman falava do ‘círculo do saber' para indicar que existe uma interdependência entre os diversos ramos do conhecimento", explicou, citando o cardeal inglês que foi recentemente beatificado, durante sua viagem à Grã-Bretanha, em setembro passado.

"Mas Deus e só Ele está relacionado com a totalidade do real e, consequentemente, eliminar Deus significa romper o círculo do saber."

Para Bento XVI, a educação e a formação são "um dos desafios mais urgentes que a Igreja e suas instituições estão chamadas a enfrentar".

"A tarefa educativa parece ter-se tornado cada vez mais árdua, porque, em uma cultura que muitas vezes faz do relativismo seu credo, falta a luz da verdade; em contraste, é considerado perigoso falar da verdade, infiltrando-se, assim, a dúvida sobre os valores básicos da existência pessoal e comunitária", reconheceu.

Por isso, "é importante o serviço que levam a cabo no mundo inteiro as numerosas instituições de ensino que se inspiram na visão cristã do homem e da realidade".

"Educar é um ato de amor, exercício da ‘caridade intelectual', que exige responsabilidade, dedicação, coerência de vida."

Portanto, disse ele, tanto as universidades como as escolas católicas, "com sua identidade específica e abertura à ‘totalidade' do ser humano, podem realizar um trabalho valioso para promover a unidade do saber, orientando estudantes e professores à Luz do mundo, à ‘luz verdadeira que ilumina todo homem'".

O Papa exortou os presentes à "coragem de proclamar o valor ‘amplo' da educação, para formar pessoas sólidas, capazes de colaborar com os outros e de dar sentido à própria vida", e a uma "fidelidade valente e inovadora, que saiba conjugar a consciência clara da própria identidade com a abertura à alteridade, pelas exigências do viver juntos nas sociedades multiculturais".

O Pontífice também falou sobre o ensino da religião, que, segundo ele, "contribui amplamente não só para o desenvolvimento integral do aluno, mas também para o conhecimento dos outros, para a compreensão e o respeito mútuos".
Fonte: http://www.zenit.org/

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O Mistério do Natal





"E o Verbo se fez carne”. Isto se tornou realidade no estábulo de Belém. Mas cumpriu-se ainda de outra maneira. “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue, este terá a vida eterna”. O Salvador que sabe que somos e permanecemos humanos, tendo que lutar dia após dia, com fraquezas, vem em auxílio da nossa humanidade de maneira verdadeiramente divina. Assim como o corpo terrestre precisa do pão cotidiano, assim também a vida divina em nós precisa ser alimentada constantemente. “Este é o pão vivo que desceu do céu”. Quem come deste pão todos os dias, neste se realizará, diariamente, o mistério do Natal, a Encarnação do Verbo. E este, certamente, é o caminho mais seguro, para se tornar “um com Deus” e de penetrar dia a dia de maneira mais firme e mais profunda no Corpo Místico de Cristo." (STEIN, Edith. O mistério do natal.[tradução Hermano José Cürten]. -- Bauru, SP: EDUSC, 1999, p.28.)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

SANTA TERESA BENEDITA DA CRUZ – EDITH STEIN

Dia 9 de agosto no Carmelo é celebrada a festa litúrgica de S. Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), nascida a 12 de outubro de 1891 e tida como desaparecida dia 9 de agosto de 1942, no campo de concentração de Auchwitz. Judia, Filósofa, Edith Stein foi considerada por João Paulo II como uma personalidade síntese do drama do século XX.

Apresentamos abaixo parte do texto das fichas 38 e 39, extraído da obra de Francisco Javier Sancho Fermín, 100 Fichas sobre Edith Stein, Edições Carmelo, Marco de Canaveses, Portugal.

"Preparada para o martírio

Há muitos anos que Edith intuía o que ia acontecer: "Se te decides por Cristo, isto pode custar-te a vida" (OC V, 632). Assumira, até às últimas consequências, o significado da sua vocação e da sua íntima união com Cristo, já que se "quiser entrar com Ele na glória celeste, ela mesma tem que se deixar cravar na sua cruz" (OC V, 651).

A situação começou a tornar-se ameaçadora; quase no mesmo instante enfrentava-se com o seu último escrito, a Ciência da Cruz. Um título que surge da identificação vocacional com São João da Cruz e com tudo o que está a acontecer. 0 jesuíta J. Nota, que esteve em contacto com Edith Stein em Echt, diz-nos: "No contacto com ela notava-se particularmente a presença de Deus. Estou plenamente convencido de que na sua Ciência da Cruz ela escreve por experiência pessoal. Atrevo-me mesmo a chamar-lhe mística" (Positio 397).

As páginas deste livro estão cheias desse amor à cruz, desta sabedoria da cruz paulina. Ela sabe que não é uma teoria e que "uma scientia crucis só se pode adquirir se se chega a experimentar profundamente a cruz" (Ct 1383).

Da vivência pessoal da cruz de Cristo, tira-se como consequência imediata não só o seu grau de configuração com Cristo, mas também a sua vivência antecipada do maior gesto de amor: dar a vida pelos outros, o martírio. No seu Testamento mostrava claramente a sua disponibilidade, tal como no seu oferecimento pela paz.

Foi assim como ela sempre se viu. Por isso, encontrou o seu modelo precisamente na rainha Ester. A sua função não consiste em morrer, mas em interceder com toda a alma e disponibilidade, inclusive contando com a possível morte. Uma entrega que, a exemplo do seu Mestre e unida a Ele, tem um valor apostólico redentor. Numa das suas peças teatrais, titulada Diálogo noturno, escrita em 1941, ela representa a Rainha Ester. Apresenta-se diante da prioresa do convento solicitando voluntárias que, como ela, queiram arriscar a vida para salvar o seu povo (cf. OC V, 729 ss).

Na fé cristã esperou a chegada da sua morte. E assim a contempla a Igreja. Na Ciência da Cruz, Edith oferece-nos um belo texto aplicado a João da Cruz, mas que nos pode também ajudar a compreender o mistério da sua vivência interior, a sua disposição total, por amor a Deus e por amor ao seu povo: Quem podia falar assim, estava configurado intimamente com o Crucificado. Tinha chegado o momento em que, inclusive externamente, tinha de morrer com morte de amor na cruz. Agora faltavam cumprir-se os seus últimos desejos: "Só desejo que a morte me encontre num lugar isolado, longe do convívio com os homens, sem irmãos do convento para orientar; sem alegrias que me possam consolar, provado com todas as penas e dores. Quereria que Deus me provasse como servo, depois d'Ele ter provado no meu trabalho a resistência do meu caráter; quereria que me visitasse com a doença, como me provou na saúde e na força; quereria que me deixasse tentar no opróbrio, como o fez com o bom nome que tive diante dos meus inimigos. Senhor, digna-te coroar a cabeça do teu indigno servo com o martírio..." (OC V, 468).

E foi essa a realidade que experimentou com toda a crueza ao chegar a Auschwitz- Birkenau, morrendo na câmara de gás, despojada até do hábito, no meio do horror que se sente ao contemplar como crianças e adultos eram assassinados em massa, e despojados de toa a sua dignidade humana.

De Echt a Auschwitz

No domingo, dia 2 de Agosto de 1942, irrompiam no Carmelo de Echt os policiais que vinham buscar Edith e Rosa. Tinham ordem de as prender imediatamente e de as levar consigo. Deram-lhes apenas 10 minutos para recolher o imprescindível e despedirem-se da comunidade.

Neste mesmo dia foram presos outros religiosos e religiosas, alguns deles muito conhecidos de Edith: a irmã Miriam Michaelis (das Irmãs de São José), a irmã Aloisa Lõwenfelds (Congregação das pobres servas de Jesus), Ana Maria e Elfrieda Golschmidt (ursulinas de Echt), Ruth Kantorowitz, Alicia Reis (afilhada de batismo de Edith), a médica Lisamaria Meirowsky, a irmã Caritas Bock, os irmãos trapistas Loeb e o franciscano Wolgang Rosenbaum.

As duas irmãs Stein foram levadas diretamente para Roerdmond. Ali esperavam-nas uns caminhões que as transportavam com muitos outros para o campo de concentração de Amesfoort. Chegaram aqui à noite porque os condutores se perderam no caminho. Estiveram aqui dois dias completos. Em Amesfoort, o Conselho judeu podia prestar pequenas atenções aos judeus, como por exemplo, a possibilidade de enviar algum telegrama. 0 que Edith enviou ao seu convento chegou no dia 5.

Na noite de segunda-feira foram levadas para a estação de comboios da localidade. Ali obrigaram-nas a subir para um comboio em direção a Hooghalen. Dali foram a pé até ao campo de concentração de Werterbork, demorando cerca da uma hora a percorrer os 4 quilômetros. Chegaram na terça-feira à noite.
A comunidade de Echt ficou muito preocupada pelo destino das duas irmãs. Logo que receberam o telegrama enviado por Edith, procuraram quem lhes pudesse levar a Westerboork algumas coisas necessárias: mantas, roupa... Na quinta-feira, dia 6 de Agosto, as pessoas que lá chegaram à tarde, comprovaram para sua admiração que Edith irradiava uma grande paz e serenidade. Na sua última carta anuncia já o que se avizinha: a mudança para Este.

Nestes dias, Edith coincidiu com Etty Hillesum que, numa das suas cartas diz como se impressionou com a presença de religiosas e religiosos com a estrela amarela no hábito.

E assim aconteceu. No dia 7 de manhã cedo puseram-nos novamente a caminho para a estação de Hooghalen. Um comboio levou-os para Auschwitz-Birkenau, um campo construído e ampliado posteriormente para o extermínio dos judeus e outros indivíduos (ciganos, homossexuais, doentes psíquicos...). Uma longa viagem que chegaria ao fim no dia 9. 0 comboio passou por uma localidade muito familiar a Edith: Schifferstadt, muito perto de Espira. Aqui ficou o último testemunho de Edith ainda viva, que, pela janela do comboio, pôde enviar umas saudações aos seus conhecidos através do chefe da estação. 0 comboio dirigiu-se depois para Este, onde os esperava a morte.

0 comboio chegou a Auschwitz no dia 9 de Agosto, uma semana depois de ter sido arrancada do seu convento. Rosa e Edith iam decididas a entregar a vida por amor ao seu povo. Nas listas de prisioneiros Edith tinha o número 44.070."

Uma vida que deixou marcas...

Por ocasião dos 40 anos da morte de Edith Stein, apareceu o informe de Joahannes Wieners, motorista de um ônibus dos correios ZBV. Narra ele o encontro com um vagão na estação de manobra dos trens de Breslau. Um sentinela abriu a porta corrediça do vagão. Assim o refere com sua palavras:

"Vimos então pessoas prostradas, atiradas apáticas sobre o chão do vagão. Ficamos impressionados com o fedor que desprendia do vagão. Então apareceu na porta uma mulher com hábito de monja. Como parecia que me mostrava compassivo, disse-me: "É terrível; nem sequer temos recipientes onde fazer nossas necessidades". Olhei-a interrogativamente e disse-me, vacilando: "Agora vamos para a morte". Impressionou-me muito aquilo. Então perguntei-lhe sério: "Sabem isto os que vão com a Senhora?" E com a voz embargada respondeu: "É melhor que não o saibam".... Perguntei-lhe: "Podemos dar-lhe alguma coisa para comer ou beber?" Respondeu-me: "Não, obrigado; não aceitamos nada". No vagão podia ler-se que vinha da Holanda.... quando voltei do cativeiro, em 1948, li um folheto sobre Edith Stein. Na foto reconheci a monja daquele dia, 7 de agosto de 1942. Como dia de sua morte, colocaram 9 de agosto."

Outro testemunho, do Sr. Wielek, funcionário holandês de Westerbork, publicado no jornal De Tijd em 1952, refere-se à serenidade de Edith, mesmo em meio aos sofrimentos. Referindo uma conversa que tivera com Edith, ela dizia: "O mundo está feito de opostos... porém no final não restará nada destes contrastes. Somente permanecerá o grande amor". (do livro: El verdadero rostro de Edith Stein, de Waltraud Herbstrith, Ediciones Encuentro, Madrid 1990).

Fr. Alzinir Debastiani
(Padre Provincial da Ordem dos Carmelitas Descalços - Província São José - Sudeste - Brasil)

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Postado por Luciano Dídimo no OCDS - PROVÍNCIA SÃO JOSÉ em 8/09/2010 12:02:00 AM

sexta-feira, 16 de julho de 2010

PENSAMENTOS DE SANTA EDITH STEIN SOBRE MARIA


”Cada mulher seja uma cópia da Mãe de Deus, seja uma esposa de Cristo, seja uma apóstola do Coração Divino. Todas, então, corresponderão plenamente à sua vocação feminina, independentemente das circunstâncias e das atividades exteriores nas quais realizam as tarefas desenvolvidas”.
”Se Maria é o protótipo da genuína feminilidade, a imitação de Maria deve ser o fim da formação da jovem”.
”A Virgem que guardava no seu coração cada palavra que Deus lhe dirigia, é o modelo das almas atentas nas quais é revivida a oração de Jesus Sumo Sacerdote”.
”A virtude do Espírito Santo cobriu a Virgem Maria enquanto esta, sozinha, rezava e realizou a Encarnação do Redentor”.
”Maria nos gerou segundo a vida da graça, dando-se totalmente, de corpo e alma, para ser a Mãe de Deus”.
”Que possamos voltar o olhar à Mãe de Deus, Maria, nas bodas de Caná. O seu olhar silencioso e perscrutador observa tudo e repara onde falta alguma coisa. E antes que alguém perceba e ocorra algum embaraço, ela já prestou a sua ajuda. Encontra meios e modos, dá as indicações necessárias, e isso tudo em silêncio, sem deixar perceber nada”.

”Maria, hoje permaneci contigo sob a cruz e jamais sentira tão claramente que foi sob a cruz que te tornaste nossa Mãe. Como a fidelidade de uma mãe da terra não escutaria solícita a última vontade do filho?”.
”Maria, tu nos conheces a todos: nossas feridas, nossas chagas, tu conheces também o esplendor celeste que o amor de teu Filho quer difundir sobre nós na claridade eterna. Assim, guia solícita nossos passos”.


http://gentedefe.com/groups/edith-stein

domingo, 27 de junho de 2010

Comentário do Evangelho do dia feito por Edith Stein

13º Domingo do Tempo Comum - Ano C

Evangelho segundo S. Lucas 9,51-62.

Como estavam a chegar os dias de ser levado deste mundo, Jesus dirigiu-se resolutamente para Jerusalém e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de lhe prepararem hospedagem. Mas não o receberam, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» Mas Ele, voltando-se, repreendeu-os. E foram para outra povoação. Enquanto iam a caminho, disse-lhe alguém: «Hei-de seguir-te para onde quer que fores.» Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.» E disse a outro: «Segue-me.» Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.» Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti, vai anunciar o Reino de Deus.» Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família.» Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não está apto para o Reino de Deus.»

Da Bíblia Sagrada

Comentário ao Evangelho do dia feito por :
Santa Teresa Benedita da Cruz [Edith Stein] (1891-1942), carmelita, mártir, co-padroeira da Europa
Meditação para a festa da Exaltação da Santa Cruz (a partir da trad. Source cachée, Cerf 1999, p. 277)

«Segue-Me»
O Salvador precedeu-nos no caminho da probreza. Todos os bens do céu e da terra Lhe pertencem. Não representam para Ele nenhum perigo; podia fazer uso deles e manter o Seu coração completamente livre. Mas Ele sabia que é quase impossível a um ser humano possuir bens sem se subordinar a eles e tornar-se seu escravo. Foi por esta razão que Ele abandonou tudo e nos mostrou, com o Seu exemplo, mais ainda do que pelas Suas palavras, que só possui tudo quem não possui nada. O Seu nascimento num estábulo e a Sua fuga para o Egipto mostravam já que o Filho do Homem não teria onde reclinar a cabeça. Quem quiser segui-Lo tem de saber que não temos aqui morada permanente. Quanto mais vivamente tomarmos consciência disso, mais fervorosamente tenderemos para a nossa futura morada, e exultaremos com o pensamento de termos direito de cidadania no Céu

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Reflexões de Santa Teresa Benedita da Cruz



Partilhamos alguns trechos da reflexão de Santa Teresa Benedita da Cruz sobre a oração de Nosso Senhor Jesus Cristo na sua Última Ceia, quando foi instituído os Sacramentos da Eucaristia e da Ordem, de onde nasceram a vida da Igreja.

"Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?"
(Mateus 26,14-25)

"Sabemos, pelos relatos evangélicos, que Cristo orou como judeu crente e fiel à Lei... Ele pronunciou as velhas orações de bênção do pão, do vinho e dos frutos da terra que ainda hoje se recitam, como testemunham os relatos da Última Ceia, totalmente consagrada a uma das mais sagradas obrigações religiosas: a solene refeição pascal, que comemorava a libertação da servidão do Egito.

Talvez seja aqui que temos a visão mais profunda da oração de Cristo, e como que a chave que nos introduz na oração de toda a Igreja...A bênção e a partilha do pão e do vinho faziam parte do rito da refeição pascal. Mas uma e outra recebem aqui um sentido inteiramente novo. Aqui nasce a vida da Igreja.

É certo que só no Pentecostes é que a Igreja nasce como comunidade espiritual e visível; mas aqui, na Ceia, cumpre-se o enxerto do sarmento na cepa que torna possível a efusão do Espírito. As antigas orações de bênção tornaram-se, nos lábios de Cristo, palavras criadoras de vida. Os frutos da terra transformaram-se na Sua carne e no Seu sangue, encheram-se da Sua vida... A Páscoa da Antiga Aliança veio a ser a Páscoa da Nova Aliança"

(Santa Teresa Benedita da Cruz)